Os três grandes momentos da Egitomania no mundo

Em meados do século XIX, especificamente em 1802, quando o Reino Unido colocou em exibição a Pedra de Roseta, no Museu Britânico, o mundo lançou seus olhos para o Antigo Egito. Os estudiosos nunca o tiraram de lá, mas o grande público, redescobriu esse lugar repleto de história e rodeado de misticismo. A Pedra de Roseta tem um texto escrito em três línguas: A “norma culta” em hieróglifos egípcios, a segunda em uma língua mais popular e a terceira em grego antigo, mais conhecida na época. Com isso, foi possível traduzir muitas coisas relacionadas ao Egito Antigo, mostrando ao resto do mundo um melhor entendimento a cerca de seus costumes, vivências e histórias. O mundo ficou obcecado em Egiptologia, incluindo D. Pedro II que arrematou em um leilão a múmia Khemira, de dois mil anos, trazendo-a para o Brasil em 1984 e colocando em exposição no Museu Nacional (destruído por um incêndio em 2018). Não era difícil ter uma múmia. Nessa época iniciou-se uma verdadeira caçada por produtos egípcios, até porque não se mumificavam apenas os faraós e sim praticamente todos os seres vivos, desde animais domésticos até pessoas comuns. A diferença era no ritual e na pompa dessas mumificações, logo não era difícil ter sua múmia particular. A elite britânica tinha múmias inclusive decorando cômodos das casas e algumas vezes eram feitas festas para “desembrulhar” as múmias. Esse jogo era interessante porque a medida que a múmia era desenrolada (dependendo da importância dela), eram encontradas jóias ou pertences pessoais dentro das fitas de linho.

Após alguns anos, o interesse popular pelo Antigo Egito foi caindo em esquecimento, ficando apenas para os estudiosos a chama acesa de que ainda existiam coisas a serem descoberta. O próprio Egito foi saqueado de todas as formas possíveis, com suas múmias e tesouros históricos distribuídos pelo resto do mundo. Acreditava-se que nada de grande importância ainda poderia estar intacta e longe dos ladrões até que Howard Carter seguindo seus extintos e mesmo desacreditado pelos colegas, descobriu o túmulo de Tuntancamon em 1923. O valor histórico incalculável e também a dita maldição que pairou sobre aqueles que profanaram o túmulo foi o combustível que faltava para a egitomania voltar com força total ao redor do mundo.

Não foi difícil imaginar o que estaria por vir. Essa egitomania claramente chegaria aos cinemas e foi assim em 1932 com a estreia do filme de terror A Múmia. É neste longa que somos apresentados pela primeira vez a Imhotep e a busca pela reencarnação da sua amada Anck-su-Namun. A figura aterrorizante desse ser povoou o imaginário popular durante muitos anos e foi a imagem definitiva de múmia como entidade maligna. Foram necessários 67 anos para surgir um novo conceito de múmia no cinema e com uma roupagem totalmente nova, por mais estranho que possa ser esse termo.

Nos anos 90, o cinema de aventura ainda estava vivendo um auge considerável com filmes que contemplavam toda a família a exemplo de Esqueceram de Mim, Jurassic Park, Jumanji, MIB, Independence Day, De volta para o futuro III e claro, A Mumia. O diretor Stephen Sommers trouxe para as telonas uma especie de Indiana Jones moderno, com um protagonista incrivelmente carismático e ao mesmo tempo canastrão, bonito e com uma presença em cena que poucos atores conseguiriam sem parecer pateta. Rick O´Connel por muito pouco não foi interpretado por Leonardo di Caprio mas seu compromisso com o filme A Praia o tirou da jogada.

O roteiro, apesar de simplista, tem todos os elementos que interessam ao público desde que ligados de forma coerente. A Múmia tem um protagonista cheio de qualidades como descrevi acima, uma protagonista inteligente e corajosa, americanos comendo o pão que o diabo amassou, vilões simpáticos e cheios de humor a exemplo de Jonathan e Beni além de, claro, uma Múmia interessantíssima com ares de drama, comédia e terror. Aliado a isso temos também caça a tesouros arqueológicos, pragas, competição, mortes e mutilações, amor e escaravelhos, muitos, muitos escaravelhos.

O filme pesa a mão em alguns momentos, seja forçando na comédia, no CGI insistente para mostrar o vilão deformado e até mesmo na trama fantasiosa mas nada disso prejudica o resultado final. A Múmia envelheceu bem e ainda hoje é possível entrar na história e se divertir com essa aventura. Isso também se deve ao fato do filme reacender aquela chama no interior da criança que todos nós já fomos, umas sonhavam em ser astronautas, outras arqueólogas para ir em busca de dinossauros… outras olhavam as pirâmides de Gizé nos livros da escola e imaginavam os tesouros escondidos naquele lugar, como aquele povo vivia e como morreram. Talvez esse seja o maior mérito do filme: reacender a chama do cinema de aventura em todos nós.

Uma criatura meio doida que lembra a irmã do Ferris Bueller, finge que é nerd, adora filmes de terror mas tem medo de comédias românticas.

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