Crítica | O Animal Cordial

O que leva uma pessoa a chegar ao seu limite e começar a agir de forma instintiva, quase como um animal? Esse é um bom questionamento acerca do personagem principal de O Animal Cordial, filme de estreia da diretora baiana Gabriela Amaral Almeida. O interessante da arte é justamente levar à reflexão, sem por isso deixar de ser um entretenimento.

Inácio (Murilo Benício) é dono de um restaurante em São Paulo que fica em um lugar isolado e que sofreu um assalto. É fácil perceber a frustração do personagem enquanto ele encara o próprio reflexo no espelho ou quando tem uma discussão com a esposa por telefone. O estabelecimento também tem sua tensão e frustrações dos funcionários. Para a “explosão” acontecer tudo que é preciso é uma simples fagulha.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados no filme O Animal Cordial.

Durante o fim do expediente, apenas três clientes e dois funcionários estão no local, além do dono, quando surgem dois assaltantes para roubar o restaurante. Esse foi o gatilho necessário para transformar Inácio em outra pessoa. O homem puxa uma arma e reage ao crime. O personagem transforma todos em reféns, com exceção de Sara (Luciana Paes) – garçonete do estabelecimento que tem uma boa relação com o patrão, sendo inclusive chamada de baba ovo por um dos funcionários.

Antes do assalto acontecer, a diretora é inteligente e nos apresenta o restaurante, uma vez que toda a narrativa se passa dentro dele. O salão principal é verde, passando uma certa calma e neutralidade. O corredor que dá nos sanitários e no fundo do local é vermelho, sinalizando que dentro do local existe algo que chama a atenção, uma cor forte pronta para “explodir”. A cozinha tem um luz mais forte e tons cinzas, conflitando e equilibrando os outros ambientes.

Gabriela também é hábil em filmar cada um dos locais de forma diferente, mas sempre utilizando closes e planos fechados, construindo uma sensação de claustrofobia. Afinal de contas, o espectador, assim como os personagens, estão “presos” dentro do restaurante. Esse sentimento ajuda a deixar a narrativa ainda mais tensa e intensa, graças ao ótimo trabalho de direção de arte e fotografia.

O Animal Cordial, foto

Outro elemento importante é a trilha sonora de Rafael Cavalcanti que utiliza muito sintetizadores para ajudar no clima de suspense e tensão, mas também evocar uma certa nostalgia dos filmes de terror dos anos 80.

Depois do ambiente da trama, é hora de apresentar os personagens. Se nos filmes slasher (subgênero do terror onde um assassino psicopata mata aleatoriamente) americanos dos anos 80 o vilão sempre matava usando o conservadorismo como filosofia – as mulheres que faziam sexo eram mortas, enquanto as virgens se salvavam -, em O Animal Cordial o roteiro, também escrito por Gabriela, estabelece uma ótima relação de classes entre os personagens.

Inácio é o retrato daquele típico “cidadão de bem” que acha que pode resolver seus problemas e frustrações com uma arma em mão. Já o cozinheiro Djair (Irandhir Santos) é homossexual, quase uma figura trans com seu cabelo comprido, e também nordestino. Entre os clientes temos um casal rico e um ex-policial. Enquanto Sara é mulher que fica entre tomar o lado do patrão ou não, sendo que existe uma atração entre eles percebida através de um rápido close entre um pequeno toque carinhoso entre eles.

O Animal Cordial estabelece muito bem a relação entre esses personagens, quase como um reflexo da própria realidade do país. Temos alguns diálogos que exemplificam acertadamente questões como intolerância, homofobia e afins. A diretora usa isso habilmente como o pano de fundo da narrativa, mas não torna isso o viés principal da história. O elenco contribui bastante nesse sentido e os atores estabelecem perfeitamente seus respectivos papéis, para que nenhum deles se torne algo caricato e inverossímil.

O Animal Cordial, foto

O filme segue a estrutura dos slasher movies, dessa forma o espectador acompanha a jornada de Inácio e de como o personagem não tem nenhum pressa em lidar com suas “vítimas”. Cada uma delas tem seu papel e importância dentro da narrativa. Quem irá sobreviver no final? Será que algum deles conseguirá impedir o “vilão”? Contudo, estamos diante de uma obra de terror realizada por uma mulher, então é claro que a diretora não irá deixar as personagens femininas de lado. Não demora para perceber que na verdade a grande protagonista da história é Sara.

Como um bom filme de terror, não poderia ficar de fora a violência, sangue e, claro, sexo. O vermelho do sangue sai dos corredores e chega até o salão verde, realizando finalmente o encontro das cores. A violência explora bem o lado animal dos personagens, mas Gabriela é hábil em nem sempre mostrar tudo de forma explícita, já que muitas vez apenas ouvir o som do corte pode ser mais assustador através do poder da sugestão. Já o sexo é apenas um reflexo do lado mais instintivo dos protagonistas, mas serve também para “chocar” um pouco com algo mais explícito, já que para a sociedade um ato sexual é mais “chocante” do que um ato violento.

É uma ótima surpresa ver um filme de terror como O Animal Cordial ser realizado no Brasil, ainda mais sob direção de uma mulher. É bom ver que o produtor Rodrigo Teixeira de A Bruxa, que tem um pouco em comum com o trabalho de Gabriela, e Me Chame pelo Seu Nome, tenha investido no talento da diretora e o resultado é um ótimo filme, que além de ser tecnicamente excelente, tem uma história competente que reflete de maneira inteligente e interessante a realidade e tensão atual da sociedade brasileira.


Uma frase: – Inácio: “Você sabe como isso aqui vai acabar?”

Uma cena: A cena de sexo e sangue.

Uma curiosidade: O longa teve sua estreia mundial no Fantasia Film Festival em Montreal, no Canadá.

 


O Animal Cordial, cartazO Animal Cordial

Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro:
Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Ariclenes Barroso, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro e Camila Morgado
Gênero: Thriller
Ano: 2017
Duração: 98 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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