Crítica | Fariña (Cocaine Coast)

Em 3 de agosto de 2018 estreou no catálogo da Netflix a série Fariña, baseada em fatos reais e nas histórias do livro homônimo, ela conta a história de como o narcotráfico evoluiu na Galiza (Galícia) dos anos 80 e como Sito Miñanco, um pescador e pai de família, se tornou um dos maiores traficantes da Europa.

A história acompanha a vida Sito Miñanco desde que ele era um pescador quebrado até se envolver em um problema com um grupo e ter que fazer uma entrega para pagar uma dívida. Um jovem pobre que praticava pesca ilegal acompanhado pelo pai em uma cidade muito pobre, que dependia exclusivamente da atividade pesqueira. Um tipo de cidade em que o desemprego era alto e não aparentava ser uma boa opção nem para fazer turismo já que por lá chove a maior parte do tempo.

DO TABACO À COCAÍNA

As coisas começaram a mudar na região quando o tráfico de cigarros (tabaco) começou a ganhar força. Nos anos 80 o cigarro ainda tinha muita força comercial e o comércio ilegal gerava uma boa renda para os que estavam desempregados. Logo que surgiram grupos rivalizando pelos lucros, tiveram a ideia de formar uma cooperativa para que todos saíssem ganhando e evitasse um derramamento de sangue (que chamaria a atenção das autoridades e ainda afastaria o apoio da população). Pensando nisso, o grupo era totalmente contra o tráfico de outras drogas, já que o transporte ilegal de cigarros era visto como delito e não um crime.

É nesse contexto que o protagonista Sito Miñanco é inserido, buscando uma alternativa para viver com mais conforto. Por ser um piloto habilidoso no mar, começa a receber cargas, trabalhar para si e fazer parte do “grupo de empresários” (como eram conhecido os componentes do cartel). Durante uma viagem ao Panamá ele conhece a mulher que intermedia a união do galego ao cartel colombiano que Pablo Escobar comandava, descarregando cocaína e servindo como porta de entrada da droga na Europa.  

E esse salgado aí?

MODA ESPANHOLA VAI SER A NOVA NOVELA MEXICANA?

Essa série vem seguindo o rastro de sucesso deixado por Narcos, até então a série mais forte da Netflix, que descambou por contar a história de outros traficantes e tem gerado boas notas de avaliação. Mas é notória a invasão espanhola na Netflix e o padrão de qualidade que vem agradando brasileiros e virando moda em outros países: Ministério do Tempo, A Casa de Papel, O Tempo Entre Costuras. Dizem que a série Isabel também promete, mas ainda não está no catálogo.

A série espanhola tem uma pegada para os que gostam de “novela das seis”, não carrega o mesmo peso nas atuações e nem mesmo o nível de violência apresentada pela antecessora. Tem elenco de bons atores, que não compromete e nem tão pouco te faz morrer de amores. Sem muitas locações e com cenas de ação que evoluem de pobre para modesta, a série introduz um pouco da cultura da região da “Ria” e Cambados, mas não explora muito os principais pontos da região.

TRILHA SONORA

Isso é La Fúria?

Assim como no Campeonato Espanhol, a maioria das novelas estão focadas em Madri-Barcelona (alô RJ-SP, vocês tem primos), escapar desse polo e adaptar a história de um evento dessa magnitude em  uma comunidade autônoma quase isolada na Espanha, deu um novo fôlego para a diversidade do país. Fico imaginando por um momento como se sentiram as pessoas que viveram essa época, escutaram essas músicas e hoje se sentem representados na tv para o mundo inteiro.

A trilha sonora é na maior parte composta por bandas de rock da região (Ivan Ferreiro, Siniestro Total, Heredeiros da Crus, Os Resentidos) e algumas músicas contextualizam os acontecimentos enquanto acompanham os passos de Sito. Em uma breve pesquisa descobri que Ivan Ferrero é o autor do trecho de abertura “O que tenho que fazer para não ir ao mar? Sobra peixe para vender e farinha para amassar” e dá para perceber a angústia dos homens daquela cidade que cresceram querendo ser como Miñanco ou simplesmente tentando fugir desses dois destinos.

SABE O QUE EU ACHO?

Fariña é um trabalho bem feito, não chega a ser excepcional por conta da qualidade de outra série que envolve o mesmo tema, mas é persuasiva por conta dos personagens e a história de Sito Miñanco que é uma exceção absurda naquele contexto. Normalmente os contos sobre mafiosos, gangsters e outros tipos de bandidos são suavizados para que compremos a simpatia e passemos a torcer por ele, como um Robin Hood da vida que cuida da comunidade ou Don Corleone e Frank Lucas com apego à família e origens de exclusão. A final, da pra culpar mesmo um homem naquela situação? É um dilema parecido ao que foi apresentado em Breaking Bad.

Por se tratar de uma adaptação ja é esperado que mudem algumas histórias para manipular a percepção da audiência, podendo assim caracterizar ou estereotipar, apesar de já ter lido que a série é bem fiel ao livro, existem momentos que eu não sei se foi culpa dos diretores ou se aquilo aconteceu mesmo. Mas apesar de não ter citado anteriormente, vale observar o movimento da comunidade durante os dez anos até chegar no movimento das Mães Contra as Drogas e até mesmo o incansável sargento Dario Castro, um dos poucos homens incorruptíveis dali.

Enfim, vale a pena assistir se vocês quiserem algo para assistir no intervalo do trabalho ou descansando no fim de semana.


Uma frase: “Tome isso e reze. Reze para Nossa Senhora ou para o Chefe Máximo. Mas faça parar de chover”

Uma cena: Qualquer cena com a Jana Pérez

Uma curiosidade:  O romance em que a série é baseada foi apreendido por ordem judicial em fevereiro de 2018, apenas para aparecer na lista de best-sellers da Amazon antes de a convenção ser aplicada. Antena 3 aproveitou a controvérsia para definir uma estreia antecipada, uma vez que a série não foi afetada pela ordem, o que acabou por se transformar no lançamento da série completa. A ordem de apreensão foi levantada em junho de 2018, mais de um mês após o final da série. .


Fariña (Cocaine Coast)

Direção: Carlos SedesJorge Torregrossa
Roteiro: Nacho Carretero (autor), Ramón Campos
Elenco:  Javier ReyTristán UlloaAntonio Durán ‘Morris’Carlos BlancoManuel LourenzoXosé A. TouriñánIsabel NaveiraEva FernándezMonti CastiñeirasAlfonso AgraJana Pérez
Gênero: Drama
Ano: 2018
Duração: 95 minutos / 10 episódios

Uma alma com boas intenções que está metendo dança. Dizem.

2 thoughts on “Crítica | Fariña (Cocaine Coast)”

  1. Excelente texto jovem, bem divido e bem explicado. Curti deveras.

    Já a série, é um tema que já me cansei só com Narcos, não sei se tenho fôlego pra mais outra série do tipo, ainda que tenham personagens cativantes e seja até bem produzida.

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