Crítica | Os Incríveis 2 (Incredibles 2)

Os Incríveis 2 continua exatamente onde a animação de 2004 parou, e mais uma vez acompanhamos as aventuras da família Parr (ou Pêra, se preferir a tradução brasileira). A temática do filme é parecida, mas agora temos a inversão dos papéis. Se antes o Sr. Incrível era o protagonista, agora é a vez da Mulher-Elástica. Essa simples mudança de perspectiva acrescenta novos elementos à narrativa através do ponto de vista feminino, assim como o papel da mulher na sociedade.

O roteiro, escrito pelo também diretor Brad Bird, segue uma estrutura parecida com o da primeira animação, entretanto a mudança do ponto vista apresenta uma história totalmente diferente. A família e suas diferenças continuam como o tema principal da trama. É fascinante acompanhar como os Parr lidam com os seus poderes e o fato de não poderem ser os heróis que gostariam de ser.

Após enfrentar um vilão do mundo subterrâneo, os Parr são acusados de causar prejuízos à cidade e os heróis são mais uma vez proibidos de atuar. No entanto, surge uma oportunidade de mudança quando os irmãos milionários Winston e Eleanor Deavor resolvem ajudar na causa. O plano deles é apresentar uma nova visão dos super heróis para a sociedade ao acompanhar a atividade de um deles. A escolhida para representá-los é a Mulher-Elástica.

Dessa forma O Sr. Incrível fica em casa cuidando da família enquanto sua esposa vai combater o crime. Para a senhora Parr o desafio é maior e seu objetivo é mais nobre. Ela vai ser uma heroína para ajudar os seus companheiros, mas para isso vai deixar de lado o papel de dona de casa. Em casa, o marido vai cuidar dos filhos e enfrentar um grande desafio: a descoberta dos poderes de Jack-Jack (ou Zezé se preferir).

Os Incríveis 2, imagem

Essa mudança de papéis entre eles é importante para ilustrar um pouco sobre nossa sociedade na qual a mulher tem enorme dificuldade em equilibrar o papel de mãe e o profissional. O filme ironiza isso em uma cena na qual a Mulher-Elástica está salvando um trem, enquanto por telefone ajuda o filho a encontrar um sapato perdido em casa. Já o marido tem que lidar com ciúme de heroísmo da esposa, enquanto fica em casa cuidando das atividades domésticas. Isso é importante para ele valorizá-las, principalmente quando percebe que o trabalho não é nem um pouco fácil.

A trama equilibra bem entre marido e mulher, enquanto apresenta outras subtramas como os problemas dos filhos, dentre eles a adolescência de Violeta, ou na parte em que a heroína discute sobre a importância e influência da mídia na sociedade. O roteiro equilibra esses temas de forma inteligente e leve, daquela forma que a Pixar sabe bem como conduzir, fazendo um filme que funciona para todas as idades.

Outra diferença importante na animação é na parte visual. É impressionante o avanço na riqueza dos detalhes, tanto dos personagens quanto dos cenários. O primeiro filme já era lindo e a continuação é ainda mais bonita. As cenas da aventura são ainda mais grandiosas e divertidas, além de muito bem construídas de forma que o que é visto na tela é fácil de acompanhar sem se perder no meio da ação. A trilha de Michael Giacchino também supera a do primeiro Os Incríveis, seguindo a mesma linha com influências de jazz, mas na continuação ganha ares ainda mais grandiosos e divertidos, transformando as sequências de ação em momentos eletrizantes e cheios de tensão.

Os Incríveis 2, imagem

Um outro elemento importante é a presença de Jack-Jack. Os poderes do filho mais novo da família Parr é um dos grandes atrativos da continuação. Todas os momentos que ele aparece rouba a cena com enorme carisma, muitas risadas e diversão. Ele tinha sido estrela do curta “O Ataque do Zezé”, do qual o filme inclusive “rouba” um pouco da idéia em seu início, onde a babá narrava o caos que enfrentou ao cuidar do bebê. Não duvide se a Pixar resolver fazer um filme solo dele no futuro.

Em resumo, Os Incríveis 2 é uma continuação que respeita o original e apresenta um novo ponto de vista sobre a família Parr, através da mudança de papéis entre marido e mulher, para mostrar uma nova dinâmica familiar e discutir temas relevantes à sociedade, como o papel das mulheres. Tudo isso é claro sem deixar de lado as cenas de aventura e ação da melhor qualidade, com um visual incrível, em uma fórmula para todas as idades que a Pixar sabe muito bem como executar.


Bao, imagem

Bao

Por Tássya Queiroz

Como tradição, a Disney/Pixar apresenta no início de Os Incríveis 2 um curta-metragem incrível, delicado e cheio de metáforas: Bao, dirigido por Domee Shi. Ela já havia participado do departamento de animação de O Bom Dinossauro e Divertida Mente, e no curta traz uma grande influência pessoal: sua cultura chinesa.

Em Bao a história do fantástico nascimento de um bolinho chinês que ganha vida é contado através de uma metáfora profunda e emocionante. A abordagem do tema família é apresentado pelo olhar de uma dona de casa, vale ressaltar, utilizando somente a linguagem visual, sem nenhum diálogo nos seus quase 9 minutos de duração.

O bolinho oriental vai crescendo à medida em que a dona de casa que o trouxe à vida lhe oferece amor, proteção e cuidados. Mas em um certo ponto, de forma muito sutil, o curta aborda o assunto do sentimento de abandono, num tom depressivo para as mães que com o início da independência de um filho passam a vivenciar a chamada “síndrome do ninho vazio”.

Comovente, sensível e rico em metáforas, o curta Bao mostra mais uma vez a sensacional “incubadora” da Pixar para diretores e cativa mais uma vez seu público, passando mensagens indiscutivelmente importantes e com grande impacto social de forma agradável e bela.


Uma frase: – Helena Pêra: “Tenho que deixar minha família para ajudá-la. Tenho que quebrar a lei para salvá-la.”

Uma cena: A “luta” entre Jack-Jack (Zézé) e um guaxinim.

Uma curiosidade: Com a duração de 1 hora e 58 minutos, esse não é somente o filme mais longo da Pixar Animation Studios, mas também o maior filme de animação computadorizada realizado até os dias de hoje.


Os Incríveis 2, cartazOs Incríveis 2 (Incredibles 2)

Direção: Brad Bird
Roteiro:
Brad Bird
Elenco: Holly Hunter, Craig T. Nelson, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Catherine Keener, Bob Odenkirk, Brad Bird, Sophia Bush, Phil LaMarr, John Ratzenberger, Barry Bostwick, Adam Rodriguez, Kimberly Adair Clark, Paul Eiding, Jonathan Banks e Isabella Rossellini (vozes em inglês)
Gênero: Animação, Aventura, Ação
Ano: 2018
Duração: 118 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

2 thoughts on “Crítica | Os Incríveis 2 (Incredibles 2)”

  1. Tenho ouvido falar muito bem a respeito do curta Bao, até mais do que o próprio Incríveis 2.

    Confesso que não estou ansioso para ver essa animação, mas vou me esforçar para ir no cinema

  2. Acabei de ver o filme (com a família) e gostei muito. Brad Bird é um excelente diretor, e nas primeiras sequências consegue deixar a tensão bastante presente e muito bem explorada. Do meio para o final o filme perde um pouquinho o ritmo para mim, e acho que isso tem a ver com as escolhas de roteiro. Os riscos deixam der ser os mesmos e o desenvolvimento da ação fica um pouco burocrático. Não quero dar spoiler, mas há certa repetição em relação ao primeiro, que talvez contribua para o caráter um tanto quanto burocrático do terceiro ato. Mas as reflexões sobre o mundo contemporâneo são de fato miojo boas, e é muito divertido e consistente o universo que Brad Bird cria.

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