Westworld – S02E06 – Phase Space

O sexto capítulo da segunda temporada de Westworld vem com umas série de revelações, trazendo velhos personagens de volta e apontando para um escopo muito mais amplo, embora já sugerido.

Talvez uma boa forma de entender Westworld, em sua estrutura narrativa, seja referenciando a outras obras de Jonathan Nolan, um dos criadores da série, como Amnésia (Memento, 2000) e A Origem (Inception, 2010). Amnésia evoca memórias humanas como a âncora e o eixo da consciência humana, enquanto A Origem explora a noção de que realidade se determina a partir da consciência, e sugere que a forma como essa consciência se desdobra determina também diversos “planos” (possibilidades) de existência.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados em Pahse Space, o sexto episódio da segunda temporada de Westworld.

É nesse sentido, também, que se ampliam e se definem as possibilidades de questionamento acerca das fronteiras entre a vida e à morte. E dos próprios frágeis limites da mente humana perante a infinitude daquilo que é o principal tema da segunda temporada de Westworld: a eternidade.

Desde que vimos o diálogo entre Jim Delos e William em “Riddle of the Sphinx“, o problema da eternidade como objeto principal de Westworld já havia sido sugerido, bem como a possibilidade, no âmbito da narrativa, de se preservar a consciência humana dentro de um ambiente digital. O desafio, aparentemente, seria impedir uma degeneração da consciência que não resistiria a uma instância de consciência prolongada fora de seu corpo humano de origem. Em “Phase Space”, vemos de forma mais bem delimitada os limites desse dilema. Com isso somos apresentados a um novo nível de “realidade” da trama que, concomitantemente, se torna mais clara para nós, com o retorno de um importante personagem: o Dr. Ford, interpretado mais uma vez por Anthony Hopkins. E ironicamente, justamente no momento em que uma nova camada na narrativa é apresentada, é que toda a trama da segunda temporada começa a fazer sentido.

Para quem ainda está um pouco perdido com Westworld, talvez caiba aqui uma pequena (e pretensiosa) tentativa de esclarecer as coisas. Quem chegou até aqui já deve ter percebido que Westworld se desenvolve em múltiplas linhas narrativas paralelas que não apenas variam em núcleos de personagem, mas também variam na linha do tempo desses núcleos. Para ser mais preciso, a variação de linha de tempo se dá, principalmente, da perspectiva de Bernard. Assim como se deu com Dolores na primeira temporada, a narrativa dessa segunda temporada é conduzida pela memória de Bernard (Jeffrey Wright).

Temos, assim, o que poderíamos considerar o “presente” como a sequência que abre a segunda temporada, com Bernard sendo despertado na praia pelos mercenários enviados pelo Delos para conter a situação no parque que começou 11 dias antes com a rebelião dos Anfitriões e o massacre de diversos Hóspedes que se sucederam à morte de Ford. Quando questionado pelo líder do grupo de mercenários, Karl Strahd (Gustaf Skarsgård), sobre o que aconteceu com ele Bernard, genuinamente, parece não ser capaz de responder. Mais tarde entenderemos que essa falta de memória é proposital e foi provocada por Ford, para proteger, provavelmente, tanto a identidade de Bernard quanto seu plano. Em “Phase Space”, a propósito, nos damos conta de que o Dr. Robert Ford é tão maquiavélico quanto possível de ser imaginado (o que, embora seja um clichê, é um absoluto deleite), e que seu plano é ainda mais intricado do que se poderia imaginar. Sem dúvida, Sir Anthony Hopkins tem em mãos o seu mais sombrio e fascinante personagem desde Hannibal Lecter. Se você duvida de mim, aguarde para ver do que ele é capaz no episódio seguinte.

Mas, retornando às linhas do tempo, à medida que Strand, Hale (Tessa Thompson) e Stubbs (Luke Hemsworth) questionam Bernard, sua memória dos últimos 11 dias vai retornando aos poucos. É através desse artifício que somos levados até à segunda linha do tempo dessa temporada, aquela que simplesmente dá continuidade imediata aos eventos do final da primeira temporada. Nessa linha do tempo vemos três narrativas se desdobrarem: a busca inconsequente de Dolores/Wyatt pela liberdade de seu povo e também pelo seu “pai”; a busca de Maeve por sua “filha”; e a busca de Bernard por respostas sobre si e que acontece com o parque. Curioso notar que, nesse episódio, essas três buscas encontram um clímax. Mas retornaremos a isso mais adiante.

A terceira linha do tempo, na verdade são um amealhado de diversas linhas do tempo em um passado mais remoto que gira em torno de um período de cerca de 20 anos a partir da fundação do parque. Trata-se de uma série de passagens que têm o nítido propósito narrativo de trabalhar o pano de fundo da série e se adensar no universo de Westworld, também com o objetivo de preparar a audiência para a principal revelação da temporada: a verdadeira extensão das maquinações de Ford de um lado e, de outro, o plano da Corporação Delos de desvendar o segredo da eternidade e, acima de tudo, usar os dados coletados no parque – comportamentais e de DNA – para, potencialmente, substituir os principais líderes mundiais por Anfitriões e, assim, efetivamente dominar o mundo. Será nesse episódio que todo esse pano de fundo se tornará claro, a propósito. Algo que será explicado com diálogos expositivos e de forma mais didática por Ford apenas no episódio seguinte.

Essas três linhas do tempo, é importante notar, se relacionam com um mesmo elemento, e o principal McGuffin da temporada: Peter Abernathy. Ou melhor, a imensa chave criptográfica encerrada na mente digital do Anfitrião “pai” de Dolores que é também a chave para o sucesso dos planos da Delos. Não é exagero supor, que, caso Charlotte Hale consiga pôr as mãos nesses dados, a Delos terá domínio sobre o mundo, ou pelo menos estará muito mais próxima de seu objetivo. Esse plot, a propósito, é sugerido em Futureworld, continuação de 1976 do longa metragem que deu origem a série e que, segundo o site da série, poderia vir a ser uma importante inspiração para essa temporada. O fato é cada uma dessas três narrativas irá convergir para esse centro gravitacional que são os planos da Delos, com as repercussões das mais diversas.

Dolores fará sua narrativa atingir os planos da Delos com a força de uma locomotiva cheia de explosivos e em alta-velocidade. Invadirá a Mesa – a central de controle do parque – e espalhará com sua dura e fria beleza caos e destruição, em nome de seu amor por seu pai. Sua tomada de consciência passa não apenas pelo reconhecimento de que sua identidade é definida por papéis que lhe foram impostos, mas pela irônica – porém nada contraditória – escolha em assumir esses papéis como determinantes para sua identidade. Dolores escolhe reconhecer que o Anfitrião Peter Abernathy é de fato seu pai. E essa escolha dela por essa identidade apenas reforça a crueldade de seu ato contra a identidade de Teddy.

Esse mesmo tipo de escolha é feito por Maeve, com relação à sua filha. Desde a primeira temporada ela racionalmente compreende que trata-se de um papel que lhe foi imposto. Porém, ao decidir abraçar esse papel, ela lança a pedra fundamental de sua consciência. Como a busca de Maeve por sua sua filha irá impactar nos planos da Delos, é algo menos evidente. Porém, é certo que o desenvolvimento de suas cada vez mais extraordinárias habilidades de controle sobre outros Anfitriões será determinante na definição desse conflito. Maeve é claramente o herói em sua jornada e estamos prestes a testemunhar seu “renascimento” na segunda metade dessa temporada.

Mas nada é tão revelador quanto a experiência de Bernard. Sua escolha o leva a se submeter à dor – “apenas outro programa” – para adentrar sem um mundo mais profundo que relembra muito a sua realidade, e é nesse sentido que vemos como Westworld e Inception se aproximam. Afinal, a simulação na qual Bernard adentra é o próprio universo do Berço, a base de dados na qual estão todos os backups de papéis de todos os Anfitriões, e também, descobrimos ao fim, a própria consciência do Dr. Ford, descobrimos ao fim. Mais ainda, percebemos como todo esse tempo Bernard seguiu sendo um joguete de seu criador. Coube a ele, afinal, garantir que a consciência de Ford fosse carregada no banco de dados do Berço; e de lá do Berço é que Ford tem controlado, mesmo depois que seu corpo expirou, todo o parque.

Com isso eu queria encerrar dizendo que não esqueci de uma outra narrativa, também muito importante. A continuidade do jogo entre Ford e o Homem de Preto. Essa narrativa se desenvolve inteiramente na segunda linha de tempo (apesar de também se favorecer do pano de fundo e contextualizações da terceira linha temporal). Mas essa está longe de chegar a um clímax. O que parece ser certo é que o jogo não passa de uma forma de Ford manipular o homem forte da Corporação Delos. Com que intuito, e para favorecer a quem, ainda é difícil de determinar. A entrada de Emily/Grace no jogo, porém, insere um elemento aparentemente aleatório que talvez não estivesse nos planos de Ford. Talvez. Pois não seria surpresa se ele estivesse também por trás de mais essa.



westworld, cartaz 2ª temporadaWestworld

Temporada: 
Episódio: 06
Título: Phase Space
Roteiro: Carly Wray
Direção: Craig Zobel
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Fares Fares, Luke Hemsworth, Louis Herthum, Simon Quarterman, Talulah Riley, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Gustaf Skarsgård, Shannon Woodward, Ed Harris, Ben Barnes, Clifton Collins Jr., Jimmi Simpson, Katja Herbers e Neil Jackson
Exibição original: 27 de maio de 2018 – HBO

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *