Westworld – S02E03 – Virtú e Fortuna

O título do terceiro episódio da segunda temporada de Westworld evoca diretamente Nicolau Maquiavel; mais especificamente sua mais célebre obra: “O Príncipe”, um manual político sobre o poder e os desafios de seu exercício.

Para Maquiavel, o objetivo de todo indivíduo deve ser a vitória, especificamente no jogo do poder. Para isso teria que se conduzir entre duas forças que afetam cada um de nossos atos: Virtú e Fortuna. Fortuna é a força do acaso que nos afeta constantemente. Virtú é a capacidade de imprimir em suas ações a virilidade necessária para superar os percalços da fortuna.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados em Virtú e Fortuna, o terceiro episódio da segunda temporada de Westworld.

Assim, vemos Dolores entre a Virtú e a Fortuna. Seus planos, friamente calculados, serão perturbados pela presença de seu “pai” Peter Abernathy. Este ainda é o principal objeto de cobiça de Charlotte Hale e, talvez, da Delos. Abernathy parece ser a própria manifestação da fortuna, tirando alguns de seus cursos, e lançando outros em curso novamente, como é o caso de Bernard. O reencontro de Dolores e Bernard é mais áspero do que se poderia imaginar, e ressalta o papel de pária do Anfitrião que se faz passar por humano.

Esse episódio se ocupa de expandir mais o mundo de Westworld. Logo na abertura somos apresentados a “The Raj“, uma recriação da Índia dominada pelo imperialismo britânico. Aí também somos apresentados a uma nova – e aparentemente importante – personagem identificada por enquanto apenas como Grace. Ela parece estar na mesma busca que o Homem de Preto. Através dela, provavelmente, muitas respostas sobre o parque serão dadas.

westworld, The Raj

Também reencontramos Félix, Sylvester e a sempre interessante Armistice. No pólo de personagens de Maeve, um grupo parece estar se formando, e as dinâmicas entre seus componentes está sendo explorada. A consciência de Hector, por exemplo, é posta à prova por Lee, que revela ter colocado parte de suas experiências pessoais na composição da narrativa de Hector. Maeve segue com sua brilhante presença conduzindo o grupo.

A surpresa fica para o encontro com os índios da Ghost Nation, reforçando algo que já havia sugerido desde a primeira temporada: os membros desse grupo não se submetem aos gatilhos e comandos verbais. Maeve tenta exercer seu controle sobre eles e fracassa. Aparentemente há mais mistérios por trás deles do que podemos imaginar. Ford sem dúvida os criou com um propósito em seu plano que explica a imunidade desses ao controle. E esse papel sem dúvida tem relação com o que quer que tenha acontecido com Stubbs na primeira temporada e que ainda não foi bem esclarecido.

A fuga do grupo de Maeve, em desabalada carreira, acaba, aparentemente, os lançando diretamente no Shogun World. Enquanto isso Dolores prepara dia manobra, digamos, maquiavélica no Forte Última Esperança. Não fosse a fortuna, e a presença de seu pai, em seguida sequestrado por Charlotte Hale e os homens da Delos, sua vitória seria completa. Porém, ela ainda tem outros desafios, e ainda tem que lidar com uma pequena rebelião do cada vez mais consciente Teddy. Seu gesto aponta, sem dúvida, para um futuro conflito com Dolores. As virtudes que guiam Teddy não são as mesmas que guiam Dolores, ou melhor dizendo, Wyatt.

westworld, Ghost Nation

Por fim, vale um registro interessante sobre Rebus, um dos bandidos mais vis de Westworld que está sempre interessado em matar, violentar, ou ambas as coisas juntas. Para conseguir “resgatar” Abernathy seguindo as ordens de Charlotte, Bernard recorre a toda sua habilidade e criatividade e reprograma Rebus, transformando o antes desprezível vilão, no mais justo, bondoso, heróico e rápido e hábil gatilho de Westworld. Uma inversão bastante divertida, que explora muito bem as possibilidades de um cenário como Westworld. Eu adoraria ver o Rebus heróico aparecer mais vezes, com cada vez mais destaque.

Com uma narrativa estendida, enfim, os roteiristas recorreram a um formato mais linear – considerando, claro, que o mais próximo da linearidade em Westworld transita entre pelo menos três períodos. Vemos pouco daquilo que poderíamos chamar de “presente” nesse terceiro episódio, que conduziu boa parte do primeiro. O que fez falta, mesmo, foi Ed Harris. Pouco a pouco o Homem de Preto se tornou uma das coisas mais interessantes da série, tanto pelas analogias que apresenta quanto pela presença marcante do ator. Esperemos que no próximo episódio ele esteja de volta, e junto com ele as narrativas mais intrincadas que marcam Westworld.



westworld, cartaz 2ª temporadaWestworld

Temporada: 
Episódio: 03
Título: Virtù e Fortuna
Roteiro: Roberto Patino e Ron Fitzgerald
Direção: Richard J. Lewis
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Fares Fares, Luke Hemsworth, Louis Herthum, Simon Quarterman, Talulah Riley, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Gustaf Skarsgård, Shannon Woodward, Ed Harris, Ben Barnes, Clifton Collins Jr., Jimmi Simpson, Katja Herbers e Neil Jackson
Exibição original: 6 de maio de 2018 – HBO

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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