Westworld – S02E02 – Reunion

No qual conhecemos o Sr. Delos, e, com um simples sorriso de um talentoso ator, compreendemos tudo o que precisamos saber sobre uma corporação.

O segundo episódio da segunda temporada de Westworld se afasta um pouco da trama principal que, aparentemente, conduz a linha narrativa desta segunda temporada.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados em Reunion, o segundo episódio da segunda temporada de Westworld.

Mais uma vez de forma não linear somos levados de volta a linha narrativa da primeira temporada, ao invés de seguir a história que acompanha Bernard e os agentes da Delos tentando descobrir o que houve nos 11 dias que se seguiram à revolta iniciada por Dolores.

Isso é interessante por dois motivos: primeiro, reforça o aspecto da linearidade ser o menos importante para uma série como Westworld, justamente por ela ser narrada da perspectiva dos Anfitriões (inteligências artificiais, potencialmente imortais, com suas consciências e memórias sendo frequentemente manipuladas); esse recurso, inclusive, leva a audiência a experimentar toda a trama também de uma perspectiva de confusão, na qual o tempo é um elemento aleatório e não linear, que lhe aproxima de uma sensação que deve ser aquela experimentada pelos Anfitriões. Funciona dentro de uma lógica narrativa e para reforçar uma empatia com os personagens. Mais importante, funciona muito bem como recurso narrativo que serve a manter a audiência atenta a cada detalhe.

westworld, foto, Peter Mulan, James Delos

Em segundo lugar, permite que a narrativa seja contada em camadas, de acordo com um interesse que ultrapassa os limites de uma narrativa típica. Isso garante que a audiência possa sempre experimentar um novo aprofundamento na trama, conferindo uma capacidade progressiva e quase inesgotável de ampliar o estofo da narrativa. É exatamente o que se dá quando a história retorna a Dolores e William (ainda o jovem William, mais uma vez interpretado por um ótimo Jimmi Simpson, dessa vez com uma atitude mais próxima do Homem de Preto), e se aprofunda no mundo fora do parque, nas relações comerciais e familiares da família Delos (sim, esse é nome da família de Logan, que também retorna através de Ben Barnes), e nas próprias origens do parque enquanto empreendimento comercial. Cabe aqui destacar a excelente performance de Peter Mulan dando vida ao patriarca da família, o senhor James Delos: com apenas um sorriso ele nos diz tudo que precisamos saber acerca de sua família e de sua corporação. Aliás, compreender todos esses aspectos era uma vontade geral da audiência na primeira temporada e, assim, esse episódio serve também para trazer importantes respostas para a série como um todo.

Ainda levando em consideração a narrativa de Dolores, é importante testemunhar o seu deslumbramento diante do mundo fora do parque, pela primeira vez. Fica claro que, desde o princípio, Dolores vivencia suas experiências de uma forma que a diferencia dos outros Anfitriões. Desde o primeiro momento seu fascínio pelo mundo será constitutivo de sua personalidade. Fascínio, esse, antes resultado de uma curiosidade e imaginação, agora resultado da experiência. E essa experiência – que começa como deslumbramento para em seguida se apresentar como estranhamento perante o testemunho da exploração e objetificação dos outros Anfitriões – será determinante para que compreendamos os atos de Dolores ao longo da segunda temporada, ao que tudo indica.

Em termos de estrutura narrativa, a propósito, a série demonstra uma consistência importante ao recorrer à perspectiva de outro Anfitrião para atender aos fins narrativos acima mencionados a que ela se propõe. No primeiro episódio a perspectiva principal era a de Bernard. Nesse retornamos a Dolores como o ponto de vista que conduz a câmera. Faz sentido por ser um retorno à trama da primeira temporada. Isso parece, ainda, indicar que narrativa nessa segunda temporada tende a acompanhar a perspectiva de vários Anfitriões, o próximo, provavelmente, sendo Maeve.

westworld, foto, Maeve e Dolores

Em se tratando de Maeve, a propósito, testemunhamos nesse episódio um importante encontro dela com Dolores. Ambas se apresentam uma a outra com um manifesto reconhecimento de suas funções narrativas de espelho uma da outra. Isso parece reforçar outro aspecto que merece todo o respeito aos realizadores da série: Westworld nunca subestima a inteligência de sua audiência. Pelo contrário, conta muito com ela. Assim, ao expor, cenicamente, de forma aberta e expressa, a contraposição entre Dolores e Maeve ela assume o conflito já sugerido pela estrutura. É algo a se aplaudir.

Há, ainda, a narrativa do Homem de Preto que segue em busca do portal. Essa é aquela que poderíamos classificar como a linha narrativa mais próxima do presente (se é que faz algum sentido recorrer a esse tipo de cauterização para as narrativas de Westworld), apresentada nesse episódio. Mas, é claro, ela dialoga muito bem com a narrativa principal, na medida que leva o Homem de Preto a se reencontrar com um antigo aliado, e também com um novo Anfitrião representando um antigo papel. Prefiro não entrar em detalhes aqui para não estragar certas surpresas que os produtores, compreensivelmente, decidiram por reservar para os últimos minutos.

Enfim, embora, nesse episódio, não haja um desenvolvimento da trama da segunda temporada muito significativo, há um importante aprofundamento no cenário e em certos personagens – principalmente nos membros da família Delos – que contribuem tanto como recompensa para questionamentos formulados na primeira temporada, quanto como evidente preparação para a progressão da narrativa da segunda temporada. Perceber que os produtores e roteiristas da série sabem recorrer com maestria à estrutura não linear de narrativa com tanta maestria para conduzir sua trama é extremamente gratificante.

Tudo isso contribui para fazer de Westworld ser uma verdadeira pedra preciosa de uma beleza multifacetada e diferenciada, em meio a um cenário contemporâneo de séries de televisão tão bem servido de qualidade e inteligência. Pode haver até dúvidas se Westworld é a melhor série da atualidade, mas em matéria de narrativa e estrutura, esta é sem dúvida alguma uma das mais inteligentes e sofisticadas.



westworld, cartaz 2ª temporadaWestworld

Temporada: 
Episódio: 02
Título: Reunion
Roteiro: Carly Wray e Jonathan Nolan
Direção: Vincenzo Natali
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Fares Fares, Luke Hemsworth, Louis Herthum, Simon Quarterman, Talulah Riley, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Gustaf Skarsgård, Shannon Woodward, Ed Harris, Ben Barnes, Clifton Collins Jr., Jimmi Simpson, Katja Herbers e Neil Jackson
Exibição original: 29 de Abril de 2018 – HBO

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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