Crítica | Paraíso Perdido (2018)

Com uma narrativa marcada por música, tragédia e afeto, o filme Paraíso Perdido — embora esteticamente envolto por uma aura nostálgica do anos 60 — toca com sensibilidade em temas e questões atuais, como a homofobia, para falar de amor livre. A diretora e roteirista Monique Gardenberg, conhecida por dirigir Ó Pai, Ó, reúne personagens com dramas pessoais diversos para uma jornada de encontros e desencontros ambientada em São Paulo, mais especificamente, nos arredores da boate que dá nome ao longa.

José (Erasmo Carlos) é o dono do estabelecimento em que se apresentam cantores de música popular romântica. Ele é pai de Angelo (Júlio Andrade), Eva (Hermila Guedes), pai adotivo de Teylor (Seu Jorge), além de avô de Celeste (Julia Konrad) e Imã (Jaloo). Uma família que ainda tenta lidar com os próprios traumas do passado quando conhece Odair (Lee Taylor) — um policial que cuida da mãe surda, a ex-cantora Nádia (Malu Galli). A história tem doses equilibradas e verossímeis de romance, traição, vingança, mistério e drama.

Paraíso Perdido, foto 1

No longa, o paraíso pertence aos que são considerados “pecadores” pela sociedade. Imã é homossexual e drag queen, filha da ex-presidiária Eva — que decide viver plenamente a sua bissexualidade com Odair e Milene (Marjorie Estiano). Imã se envolve com o reprimido professor de inglês Pedro (Humberto Carrão). Já Angelo é taxista e cantor, abandonado pela mulher amada ainda na juventude, e pai da jovem Celeste — que vive o dilema do aborto após descobrir a traição do namorado Joca (Felipe Abib). Teylor é negro, motoboy, cantor e um apaixonado não correspondido.

A trama é conduzida pelo olhar investigativo do policial Odair, que conhece a boate Paraíso Perdido totalmente por acaso e embarca numa jornada de autoconhecimento, a qual o obriga a reviver sentimentos mal resolvidos do passado, colocando seu caráter e suas convicções à prova. Enquanto isso e não por acaso, o filme apresenta os dramas pessoais e as motivações particulares de cada personagem, que dificilmente não conquistarão a empatia do espectador, principalmente, diante da química de todo o elenco.

Paraíso Perdido, foto 2

Sobre as atuações, o destaque é a promissora estreia como ator do talentoso cantor paraense, produtor musical e compositor Jaloo — representante da nova geração da música indie brasileira. O artista se entrega ao personagem de forma quase visceral e poética. Já Erasmo Carlos, o tremendão veterano dos palcos e do cinema da Jovem Guarda, apesar de ter em mãos um papel principal, é ofuscado pelo restante do elenco, que conta com belíssimas atuações de Júlio Andrade, Malu Galli e Julia Konrad.

O roteiro surpreende e a montagem não cansa o espectador, por contar com um recurso muito bem explorado e coerente para a narrativa: a música. As apresentações musicais, bem como toda a trilha sonora do longa — assinada pelo cantor e compositor Zeca Baleiro —, são uma homenagem especial aos amantes de canções de um gênero romântico e brega. Dentre os clássicos, “Doce Pecado“, de Reginaldo Rossi; “Minhas Coisas“, de Odair José; “Tortura de Amor“, de Waldick Soriano; “Todo Sujo de Batom“, de Belchior; e muito mais.


Uma frase: – José: “Esqueçam a vida lá fora e sejam felizes aqui, no Paraíso Perdido, um lugar para aqueles que sabem amar”.

Uma cena: Quando Celeste conta para Imã, em Libras, que está grávida e pretende fazer um aborto.

Uma curiosidade: As filmagens foram feitas em São Paulo entre 6 de março e 8 de abril de 2017, tendo como locação principal a casa Le Reve, no Baixo Augusta.


Paraíso Perdido

Direção: Monique Gardenberg
Roteiro:
Monique Gardenberg
Elenco: Erasmo Carlos, Júlio Andrade, Hermila Guedes, Lee Taylor, Marjorie Estiano, Seu Jorge, Malu Galli, Humberto Carrão, Felipe Abib, Paula Burlamaqui, Celso Frateschi, Cristina Mutarelli, Nicole Puzzi e Jaloo
Gênero: Drama, Musical
Ano: 2018
Duração: 110 minutos

Filha dos anos 80, a Não Traumatizada, Mãe de Plantas, Rainha de Memes, Rainha dos Gifs e dos Primeiros Funks Melody, Quebradora de Correntes da Internet, Senhora dos Sete Chopes, Khaleesi das Leituras Incompletas, a Primeira de Seu Nome.

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