Crítica | Jogador Nº 1 (Ready Player One)

Nostalgia é a melhor palavra para definir Jogador Nº 1. Steven Spielberg usa referências da cultura pop com maestria para transportar o espectador até uma incrível viagem visual dentro do OASIS, um jogo de realidade virtual criado por James Halliday (Mark Rylance). O filme lembra diversos sucessos do cinema, da música, dos quadrinhos e principalmente do videogames. Para completar, a grande maioria das referências é dos anos 80. Ou seja, dificilmente os fãs dessa geração não se emocionarão com o longa.

Felizmente, o filme não utiliza o recurso da nostalgia como muleta narrativa e a história funciona por si só. Entretanto, em muitos momentos, os personagens explicam as referências que podem ser mais difíceis de identificar. Isso atrapalha um pouco, mas não chega a comprometer o conjunto da obra. O roteiro de Zak Penn e Ernest Cline (autor do livro) usa muitos diálogos expositivos para explicar as peculiaridades do cenário futurístico, exagerando na dose em várias ocasiões, principalmente quando o protagonista/narrador reitera com palavras o que está sendo dito nas imagens.

A história se passa em 2044, em Columbus, cidade norte americana do estado Ohio. A Terra sobrevive a diversos problemas como superpopulação, poluição, corrupção e mudanças climáticas. O mundo real é um lugar cinza, triste, solitário e sem graça. Dessa forma, só existe um lugar para escapar dessa triste realidade: o OASIS. Nesse mundo virtual, as pessoas podem viver incríveis aventuras e serem quem elas quiserem. O local é palco de uma disputa entre usuários/jogadores que concorrem para encontrar “easter eggs” deixados pelo criador do jogo, Halliday, após sua morte. Ele escondeu três chaves, dentro do OASIS, e as pistas para encontrá-las, em memórias e registros de sua própria vida. Além de um prêmio em dinheiro, o ganhador também herda o controle sobre o jogo.

O personagem principal é Wade Watts (Tye Sheridan), jovem que perdeu os pais quando ainda era criança e atualmente vive com uma tia. Assim como a maioria da população, sua vida gira em torno do que acontece dentro do OASIS. O jovem é fã de Halliday e deseja muito vencer o desafio deixado pelo criador. Para isso, além de ter que desvendar enigmas e avançar no jogo, o jovem também se depara com um poderoso e ambicioso adversário da vida real, a empresa IOI, controlada por Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), que deseja assumir o controle do universo virtual para controlar o futuro – contando, para isso, com um verdadeiro exército de usuários treinados para vencer a competição.

A história de Wade, ou Parzival – como é conhecido dentro do OASIS, abraça os principais clichês da jornada de herói. Um jovem órfão e sem pretensões que se envolve na luta contra uma grande corporação vilã. Com direito, inclusive, a um romance amoroso: Samantha / Art3mis (Olivia Cooke). Entretanto, o roteiro desenvolve bem os personagens e a narrativa de forma com que esses elementos sejam bem utilizados. A mocinha, por exemplo, não é a típica garota indefesa em perigo. A personagem de Cooke é uma das surpresas da narrativa e responsável por levar o herói para o caminho certo e ajudá-lo durante o percurso.

A construção dos personagens é muito boa. A maioria deles é apresentada primeiro no mundo virtual, então, suas características visuais e a voz são muito importantes. Quando os identificamos no mundo real, a surpresa é grande porque a maioria é bem diferente do próprio avatar. O trabalho do elenco é muito bom, principalmente, na forma como são utilizados os efeitos de voz, que alteram a forma de falar, mas cria traços marcantes em cada um deles que é possível ser notada fora do OASIS.

O grande destaque de Jogador Nº 1 é a riqueza visual do jogo e os efeitos gráficos fascinantes do ambiente do OASIS. Obviamente, que a primeira coisa que chama a atenção são as referências à cultura pop, já que a experiência, ao longo do filme, traz uma constante e agradável sensação de nostalgia. Além disso, o filme também é inteligente em alterar entre cenas de ação dentro e fora do OASIS, algo parecido com o utilizado em “Círculo de Fogo: A Revolta” – ao apresentar o personagem fazendo algum movimento no mundo real e, em seguida, sua resposta no mundo virtual. Outro fato interessante é que os eventos ocorridos fora da realidade virtual vão ganhando importância aos poucos, como se as pessoas despertassem para suas respectivas realidades, com repercussões no ambiente digital.

É impressionante, mesmo com 2 horas e 20 minutos, o tempo passa rápido graças à imersão dentro da narrativa. A duração do filme também é boa para que todos os conflitos e mistérios da história sejam bem apresentados e resolvidos sem pressa. Por conta disso, a ação dentro do longa é extremamente rápida e ágil. Em nenhum momento, Jogador Nº 1 se torna cansativo.

As cenas de ação e aventura também entregam diversão de excelente qualidade. Afinal de contas, estamos diante do trabalho de um cineasta como Steven Spielberg, que aqui se apresenta bastante inspirado, como há muito não se via. Ele é um dos responsáveis por essa enorme qualidade nostálgica em torno dos filmes dos anos 80. Por isso, a experiência de se assistir Jogador Nº 1 se torna extremamente agradável e prazerosa.

Spielberg iluminado (contém SPOILERS)

Graças ao diretor do longa, a cultura pop é homenageada em diversos momentos. Umas das referências mais óbvias é ao filme “De Volta para o Futuro”, mas ela não é apenas visual. O responsável pela trilha sonora de “Jogador Nº 1” é Alan Silvestri, que também trabalhou na trilogia de Robert Zemeckis. O compositor emociona como ninguém com sua música. O trabalho dele é maravilhoso em misturar o clima de nostalgia e emoção, principalmente quando ele inclui pequenos trechos de clássicos dos anos 80. As canções selecionadas também trazem grandes hits da década que ajudam ainda mais na imersão, quase como se pegássemos um DeLorean e voltássemos no tempo.

Outra grande e muito bem explorada referência é o do filme de terror da década de 80: “O Iluminado“, de Stanley Kubrick. Sem correr o risco de estragar a surpresa, é possível apenas dizer que a obra é utilizada de forma impressionante, engraçada e coerente dentro da narrativa, inclusive com a utilização de algumas cenas originais do clássico.


Uma frase: – Wade: “Não resta lugar onde ir. Nenhum lugar. A não ser o OASIS.”

Uma cena: A batalha final ao som de um clássico do rock dos anos 80.

Uma curiosidade: Este é um dos poucos trabalhos que Spielberg não realiza com o compositor John Williams. Williams estaria trabalhando na trilha sonora deste filme, mas teve que abandonar o projeto por já estar inserido em The Post: A Guerra Secreta, também de Spielberg.


Jogador Nº 1 (Ready Player One)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro:
Zak Penn e Ernest Cline
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller, Simon Pegg e Mark Rylance
Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi
Ano: 2018
Duração: 140 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

2 thoughts on “Crítica | Jogador Nº 1 (Ready Player One)”

  1. Não conheço o livro no qual se baseia a história, mas parece ser um filme divertido. Incrível como, no mesmo ano, Spielberg passa de um filme de tom mais sério como “The Post: A Guerra Secreta”, para outro de puro entretenimento, como esse “Jogador Número 1”.

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