Crítica | A Grande Jogada (Molly’s Game)

Os primeiros minutos de A Grande Jogada já deixam claro tratar-se de um filme escrito por Aaron Sorkin. Seus roteiros sempre têm diálogos rápidos e dinâmicos em ritmo frenético, daqueles que se você piscar por um instante pode perder algum detalhe. A diferença é que o roteirista agora também é diretor, fazendo sua estreia na posição. O longa conta a trajetória de Molly Bloom (Jessica Chastain), uma mulher que comandou um grande esquema de jogo de pôquer envolvendo enormes quantias de dinheiro.

A película faz um estudo de personagem muito intrigante sobre a jornada de Molly. O que levou essa mulher a se envolver no mundo do pôquer? Quais as suas ambições? A história é narrada pela própria personagem que conta sua vida desde a infância. Sorkin também é especialista em histórias reais, como a de Mark Zuckerberg – criador do Facebook – em “A Rede Social”, e “Steve Jobs”, então ele foi a escolha perfeita para o longa.

A estrutura da narrativa é bem interessante, por determinar o tempo presente como a época em que Molly entrou em contato com o advogado Charlie Jaffey (Idris Elba) para defendê-la. Isso ocorre após o FBI tomar o seu dinheiro, acusando-a de organizar jogos ilegais e estar envolvida com a máfia russa. A partir desse ponto, a protagonista vai contando sua jornada em forma de flashbacks. A montagem utiliza essas idas e vindas para dar um ritmo ágil e dinâmico ao filme. Dessa forma, apesar do excesso de informações apresentadas pela personagem-narradora, tudo é bem visualizado de forma didática e concisa.

Molly foi uma mulher que se destacou em um universo totalmente masculino das partidas de pôquer. Mas ela sofreu com uma educação muito rígida, e até abusiva em alguns momentos, do seu pai (interpretado por Kevin Costner). Antes de entrar no mundo da jogatina, a protagonista era uma atleta profissional de ski na neve, chegando a participar de uma olimpíada.

Logo no início do filme ela conta sobre isso e do acidente que sofreu, explicando as chances matemáticas daquilo ocorrer. Esse momento já deixa claro sua inteligência e de como ela utiliza esse cálculo estatístico para tudo. Ele foi a chave para seu sucesso no seu negócio de jogos de luxo de pôquer. Mas o detalhe que merece ser mencionado aqui é que ela ainda jovem, era pressionada pela seu progenitor a se esforçar o máximo para ser a melhor no esporte. Entretanto, Molly usou o seu talento e determinação em outra área. Fica claro que ela seria bem sucedida em qualquer coisa que fizesse, mas a narrativa explora bem a sua vida em busca de respostas e de suas motivações. Teria sido o resultado do comportamento abusivo masculino do pai? Estar no comando de uma “empresa” em um mundo dominado pelos homens seria o resultado.

Jessica Chastain se entrega muito bem à personagem, construindo a protagonista de forma brilhante. A atriz tem um carisma impressionante e consegue mostrar todas as faces de Molly Bloom: de uma jovem inocente chegando em Los Angeles em busca de novas oportunidades, após o acidente no ski, até se tornar uma mulher poderosa do mundo do pôquer. Chastain é especialista em mulheres fortes e determinadas, como agente da CIA Maya de “A Hora Mais Escura“.

O curioso de Molly é o seu código de moral. Ela montou um esquema totalmente lícito e após ter o dinheiro confiscado pelo governo, foi em busca de um advogado honesto para limpar o seu nome. Ela se envolveu com artistas de Hollywood, do mundo da música e outras pessoas ricas e poderosas, logo sabia de muita coisa. Facilmente poderia trocar informações pela liberdade, mas preferiu manter sua integridade.

O seu advogado a questiona sobre isso e A Grande Jogada tenta esclarecer suas motivações a respeito. As cenas entre Molly e Charlie são as melhores. As discussões dos personagens refletem bem o objetivo do filme, ou seja, ele – assim como o espectador – tentam entender o que levou Bloom a chegar nesse ponto. A química entre os atores é muito boa e a dinâmica entre eles elevam a narrativa ainda mais, principalmente com os diálogos rápidos escritos por Aaron Sorkin, que também mostra seu talento no comando do elenco.

Molly Bloom virou uma celebridade conhecida como a “princesa do pôquer”, mas A Grande Jogada apresenta um retrato muito humano sobre a moça. O diretor Aaron Sorkin utiliza a própria protagonista como narradora para mostrar um estudo de personagem fascinante, usando o próprio raciocínio rápido e inteligente de Molly, para construir uma narrativa cativante, através um roteiro muito bom com as características marcantes dos trabalhos de Sorkin. O longa é um excelente trabalho de estreia desse roteirista, que agora também é cineasta.


Uma frase: – Molly: “Essa é uma história real. Exceto por mim mesma, eu mudei todos os nomes.”

Uma cena: Molly contando sobre seu acidente na olimpíada de inverno.

Uma curiosidade: Foram contratados jogadores de poquêr profissionais para realizar as cenas de jogo.


A Grande Jogada (Molly’s Game)

Direção: Aaron Sorkin
Roteiro:
Aaron Sorkin
Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O’Dowd e Bill Camp
Gênero: Biografia, Crime, Drama
Ano: 2017
Duração: 140 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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