Crítica | 120 Batimentos por Minuto (120 Battements Par Minute)

Revisita discussões que hoje voltam a serem vistas como imorais e prova como alguns setores da nossa sociedade estão regredindo.

120 Batimentos por Minuto se passa na França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean.

O muito elogiado 120 Batimentos por Minuto chegou ao Brasil e provavelmente terá muito sucesso nas salas de arte e pouco espaço entre as grandes salas do circuito. Não pelo fato de ser um filme francês que conta a história de um relacionamento homoafetivo – Azul é a Cor Mais Quente já fez isso – mas sim porque o longa traz a questão da militância LGBT que acontecia em Paris há 28 anos e que volta a ser polêmica em um país no qual a onda conservadora volta a tomar força.

O filme começa convidando você (espectador) a fazer parte do grupo com um ponto de vista em primeira pessoa: As primeiras cenas são em um ambiente de pouco espaço, você consegue perceber que está cercado por várias pessoas e só as identificam naquela penumbra por conta dos feixes de luz que atravessam as frestas de uma densa cortina. Enquanto as pessoas que te rodeiam estão cochichando e sincronizando alguma mobilização é possível ouvir em alto e bom som o discurso de alguém palestrando no microfone. Então após um comando ouve-se gritaria e sons de apitos enquanto invadem o palco.

No próximo ambiente você se encontra em uma sala de aula no estilo de um auditório com mais quatro ou cinco pessoas. Enquanto isso o presidente do grupo explica o que é a Act Up e quais são as implicações feitas sobre os voluntários a partir do momento em que elas decidem voluntariarem, ali algumas regras são explicadas para que possam fazerem parte da discussão.

Uma das coisas mais interessantes nesse início de filme é como ele traz a sensação de coletividade e integração. Em poucos momentos durante o debate é possível perceber alguma centralização em volta dos personagens principais. Aos poucos o foco vai se estendendo para os personagens secundários que tem longas falas enquanto os principais são apresentados em momentos exatos, quando realmente precisam expor o que sentem durante o debate. Penso que isso faz total sentido já que é a primeira reunião na qual o espectador e os novatos estão fazendo parte.

A partir da integração, das primeiras reuniões e manifestações é que a trama centraliza em Nathan descobrindo o seu pertencimento entre aquelas pessoas e Sean como um veterano que tem algumas posturas mais enérgicas e opositoras quanto ao que é decidido por Thibault, o presidente da Act Up Paris.

Sean tem uma abordagem de enfrentamento e acha que muito diálogo pode não resolver a questão de grande necessidade que é a epidemia da AIDS. E como o laboratório não está se dedicando totalmente ao desenvolvimento da droga que pode ajudar na sobrevivência dos infectados, além do descaso do estado quanto a melhor forma de combater a proliferação e o cuidado com as minorias que são questões graves de saúde pública.

120 Batimentos por Minuto revisita discussões que hoje voltam a serem vistas como imorais e prova como alguns setores da nossa sociedade estão regredindo. Mostra a visão de alguns jovens e a ignorância na falta de cuidado no uso de preservativos. Além de abordar como alguns educadores têm posturas e compreensões diferentes sobre o mesmo assunto.

Se no início temos uma vivência mais coletiva em contrapartida se torna muito mais intimista na metade dele. O filme é recheado de euforia, animação, sensualidade, cores e boa música. O vermelho que representa a sensualidade se torna ameaçador, infeccioso. Se trata sobre sobrevivência e a partir de certo ponto se torna denso, desesperador e escuro (ou vermelho). Um relato entre Morte e Vida, mas mostrando que nesse fim, por mais inevitável que seja, ainda é vida.

O grupo não foi criado apenas para falar do preconceito e sim alertar o perigo que aquelas pessoas vivem e a batalha de muitos – como Sean – pelo direito de viver. É um exemplo de como a AIDS é tão devastadora quanto a indiferença da sociedade. 

Com certeza esse é um dos melhores filmes de 2018. Uma carga dramática reflexiva e com um final que não consigo definir bem. Podem me cobrar depois.

 


Uma frase: “O silêncio mata!”

Uma cena: A cena da invasão à escola pública para orientar os estudantes quanto ao uso de preservativos.

Uma curiosidade: Conta-se que Almodôvar caiu em lágrimas após a exibição em Cannes, onde o filme ganhou dois prêmios.

 


120 Batimentos por Minuto (120 battements par minute)

Direção:  Robin Campillo
Roteiro: Robin CampilloPhilippe Mangeot 
Elenco:  Nahuel Pérez BiscayartArnaud ValoisAdèle HaenelAntoine Reinartz
Gênero: Drama
Ano: 2017 (Estréia 4 de Janeiro de 2018 no Brasil)
Duração: 140 minutos

 

 



 

Uma alma com boas intenções que está metendo dança. Dizem.

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