Crítica | Como Nossos Pais

O filme “Como Nosso Pais” de Laís Bodanzky mostra um pouco do dilema da mulher moderna que tem que ser “perfeita”. Ser mãe, filha, cuidar dos filhos, do marido, do casamento, trabalhar, ser uma boa esposa, entre outras “obrigações”. A relação da protagonista Rosa (Maria Ribeiro) e sua mãe Clarice (Clarisse Abujamra) retrata bem o conflito de gerações e como ele influência na forma como a personagem cuida da sua família. Ela não quer repetir os mesmos “erros”, mas ao mesmo tempo não consegue fugir deles.

A cena do almoço de família no início do filme retrata bem a dinâmica entre os personagens. Rosa parece ser uma “megera” que vive reclamando do marido Dado (Paulo Vilhena), enquanto a mãe dela o defende afirmando que o trabalho dele é nobre. Aos poucos vamos vendo que não é bem assim e a relação do casal não é tão simples. O rapaz atua na defesa de tribos indígenas ameaçadas pela exploração de madeira no Amazonas, o que faz com que ele viaje com frequência deixando sua esposa sozinha com duas filhas. A única coisa que ela quer é que ele seja parceiro e ajude a cuidar das crianças. Além disso, Dado tem o emprego que sempre quis mas que não ajuda muito nas finanças da casa. Então Rosa tem que trabalhar em algo que ela não gosta para poder sustentar a família.

Uma notícia dada por Clarice para sua filha faz com que ela repense sobre toda a sua vida, as decisões que ela tomou, seu casamento, etc, e faz com que ela pare para refletir em busca de mudanças e soluções. O roteiro de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi gira em torno disso. Rosa percebe que está cansada da sua vida. Tem um emprego do qual não suporta, um marido do qual não sente mais atração sexual, tem a relação difícil com a mãe e para completar ainda tem que cuidar da irresponsabilidade do pai. Pelo menos essa relação paterna é mais fácil e a moça passa a mão na cabeça dele e está sempre disposta a ajudá-lo.

 

Ao longo do filme a diretora nos apresenta muito bem os personagens, principalmente Rosa – a protagonista – de forma com que o espectador se identifique com os conflitos e reflexões dela sobre a vida. Nesse aspecto as ótimas atuações são os grandes destaques do longa, principalmente Maria Ribeiro. A atriz entrega uma performance maravilhosa que reflete muito bem o dilema da mulher moderna. A cena na qual ela discute com uma das filhas sobre uma bicicleta na sala é brilhante, pois mostra a tentativa dela de impor respeito à criança. No entanto ela acaba sendo muito dura com a garota e logo depois de se tocar do “exagero” ela dá um abraço confortando-a. Rosa é uma personagem multifacetada e Ribeiro consegue apresentar todas as suas nuances mostrando o quanto ela é humana e que chega à conclusão de que não é capaz de dar conta de tudo. A cobrança em cima da mulher com suas responsabilidades como mãe, esposa e afins muitas vezes não é justa e dividida de forma igual com os homens.

O filme explora muito bem essa relação da família através do uso inteligente da fotografia, como ao mostrar o quarto do casal e das crianças separados por uma parede. Então vemos de um lado da tela Dado dormindo enquanto do outro lado Rosa de pé indo acordar as filhas para arrumá-las para a escola. Muitas vezes vemos a protagonista no canto da tela como se estivesse isolada dentro de sua própria casa. Além disso, o longa também utiliza alguns simbolismos interessantes. Alguns óbvios, mas eficazes, como quando Rosa vai falar sobre os fantoches que o pai usava para contar histórias quando ela era criança e os chama de “fantasmas do pai”. Mas tem um relacionado ao fato da personagem usar um tênis All-Star que funciona muito bem ao mostrar o quanto Rosa, apesar de ser uma mulher adulta e madura, ainda tenta manter algo que a lembre da juventude.

Como Nossos Pais” tem mais acertos do que erros. Um dos problemas é o personagem interpretado por Herson Capri que envolve uma ida da protagonista a Brasília que destoa um pouco do restante do filme. Apesar de ser um fato importante para o caminhar da narrativa, o mesmo não é explorado bem pelo roteiro. Felizmente o longa compensa todos os tropeços com momentos brilhantes. Qualquer cena envolvendo Jorge Mautner – que interpreta o pai de Rosa -, por exemplo, merece destaque.

A diretora Laís Bodanzky mostra que é muito talentosa e o resultado é um filme inteligente e adulto que explora muito bem o drama da mulher moderna.


Uma frase: – Rosa: “Eu não quero mais fingir que sou uma mulher que dá conta de tudo, eu não dou conta de tudo”.

Uma cena: O jantar de família no início do filme.

Uma curiosidade: O filme foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2017, levando 6 Kikitos, incluindo o de melhor filme.


Como Nossos Pais

Direção: Laís Bodanzky
Roteiro:
 Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Herson Capri, Sophia Valverde, Annalara Prates e Jorge Mautner
Gênero: Drama
Ano: 2017
Duração: 102 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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