Crítica | Game of Thrones – 7×05: Eastwatch

No qual, após o mestre ler um looongo texto de background, o jogo de RPG finalmente começa e o grupo se forma para partir em busca de uma aventura.

No quinto episódio da sétima temporada descobrimos finalmente que Game of Thrones é, na verdade, a melhor série já feita sobre uma aventura de Dungeons&Dragons.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em Eastwatch, o quinto episódio da sétima temporada de Game of Thrones.

#GoT (S07E05) – Eastwatch

Há algum tempo parte da audiência vem afirmando que, desde que se esgotou o material original, Game of Thrones se tornou uma fanfic. Bem meus jovens, sou obrigado a seguir discordando. E o quinto episódio da sétima temporada deixou isso bem claro. Não é uma fanfic que estamos assistindo, mas a um jogo de RPG.

Sim, no episódio de hoje vimos um grupo de aventureiros das mais diversas classes – só faltou o rogue que ficou em Winterfell abrindo fechaduras – se formar de maneira mais conveniente do que a verossimilhança costuma aceitar para cumprir uma missão específica: capturar um undead para convencer inimigos a forjar uma aliança.

E eu devo dizer a vocês, jovens, como jogador e mestre de RPG com mais de 20 anos de experiência já me meti em uma missão similar. O resultado a sabedoria de Capitão Nascimento esclarece muito bem: isso vai dar merda!

A essa altura da temporada já deve ter ficado claro para os fãs mais adeptos de uma narrativa mais cadenciada e lentamente construída, em favor da consistência narrativa, não é mais exatamente algo com que os produtores da série estejam preocupados. Isso, sem dúvida, incomoda muita gente. É um incômodo legítimo. Em alguns momentos chega a me incomodar. Contudo, a sensação de observar a trama avançar a passos largos e indo direto ao ponto, no fim das contas me parece mais gratificante.

Claro, seria bem melhor se a trama que se desenrola agora se desse ao longo de duas ou três temporadas. A cadência estaria mais próxima da original e haveria mais tempo para se debruçar sobre detalhes. Seria o ideal, sem dúvida. Porém, há muitas variáveis que se apresentam como um obstáculo para que tal opção viesse a ser concreta. Podemos citar o envelhecimento dos atores mais jovens, o fato de Martin ter deixado de produzir material original, as dificuldades básicas que são comuns em qualquer produção que lida com um elenco tão grande; mas, sem dúvida, o obstáculo mais significativo é o custo de produção que a série passou a ter. Avalia-se que apenas as duas últimas temporadas, compostas de treze episódios ao todo, custaram mais do que as quatro temporadas iniciais. David Benioff e D.B. Weiss precisaram fazer uma escolha, e assim decidiram contar a história mais rápido e da melhor forma possível.

E o que vimos nesses dois últimos episódios é nada mais do que o sonho molhado de todo jogador de Dungeons&Dragons no mundo. Nunca nenhuma mídia audiovisual, nem mesmo o cinema, havia conseguido adaptar com tamanha competência o gênero da fantasia medieval. Muito menos uma história com um escopo tão épico. Apenas por isso Game of Thrones já é um marco, assim como a adaptação de o Senhor dos Anéis de Peter Jackson no início do século XXI o foi. Não há dúvidas que, após Game of Thrones, o gênero da fantasia medieval será retirado das sombras e do ostracismo.

É inegável, contudo, que somos mais demandados em nossa suspensão da descrença do que costumeiramente assistindo Game of Thrones. Se a sequência envolvendo Jamie sobrevivendo ao face a face com um dragão já foi difícil de aceitar, ainda mais complicado é vê-lo não se afogar após afundar em um rio trajando uma armadura pesada e com uma prótese também nada leve, e de quebra escapar de se tornar prisioneiro de Daenarys. Bronn, sem dúvida alguma, merece muito mais do que um simples castelo.

Além da estrutura básica de preparação para uma aventura de RPG, o episódio teve algumas outras coisas dignas de nota para a trama maior que envolve linhagens e origens secretas. Vimos Jon Snow em um momento de aproximação com Drogon, capaz de intrigar até mesmo Daenarys. Assim como vimos Sam Tarly se deparar – bem, na verdade foi, mais uma vez, Gilly e não ele – com a pista que pode revelar que Raeghar Targaryen e Liana Stark e casaram antes de Jon Snow nascer, o que faria dele filho legítimo e herdeiro do trono de ferro, inclusive com precedência sobre Daenarys. A informação, porém, não chega a ficar clara para Sam, o que nos leva a crer que será uma trama deixada para o final da próxima temporada, provavelmente.

Afinal, após os embates entre Daenerys e Cersei já ficou bem evidente que a trama deve se encaminhar para lidar primeiro com o inimigo comum para apenas depois resolver a disputa pelo trono de ferro. Faz algum sentido e não deixa de ser uma opção sensata da parte de todos os envolvidos.

Será, provavelmente, na segunda metade da última temporada que fidelidades serão testadas. Vimos que Mindinho já se deu conta disso e parece estar disposto a plantar a desconfiança entre as irmãs Stark. Sam Tarly teve seu pai e irmão calcinados por Daenarys, e isso não deve ser um fato que venha a ser simplesmente ignorado por ele, o que deve refletir se alguma forma em Jon Snow.

A obsessão de Daenerys por submissão, aliás, parece ser um dos principais desafios que ela terá que superar se não quiser se tornar igual a seu pai, o Rei Louco. Cersei, por outro lado, ganhou mais um motivo para lutar como a leoa que é e se reafirmar como a grande adversária que precisa ser. E Jamie e Tyrion enfim tiveram seu reencontro, mais agridoce do que esperado, porém firmando uma ponte capaz de construir a aliança necessária aos povos de Westeros contra o exército dos mortos.

E apesar de todo o pouco que ele proverbialmente sempre soube, Jon Snow cada vez mais nos mostra que a morte lhe fez bem, e ao menos uma clareza de objetivos rara na série ele tem. Ele sabe, como poucos, que há apenas dois lados: o dos vivos e o dos mortos. E, talvez justamente por já ter morrido e voltado, ele sabe exatamente qual o lado dele.

E assim voltamos a missão central estabelecida nessa sessão de RPG, quer dizer, nesse episódio. Jon Snow já escolheu seu grupo muito bem escolhido, e no próximo episódio o veremos partir para a aventura em si. Agora ele já tem um clérigo, um paladino, um mercenário, uns bons cavaleiros e um autoproclamado fighter, com profissão ferreiro, e versado no uso de um warhammer. E, com mil demônios, não há nada mais RPG em matéria de armas do que um warhammer. Mas o mais importante, sem dúvida é o clérigo. Todo mundo sabe que não se encara undead sem clérigo.

A mim só resta esperar que a próxima semana traga um episódio ainda mais RPG do que este. Game of Thrones, sem dúvida, é cada vez mais a série de fantasia medieval que eu sempre sonhei em ver. Seja isso para o bem ou para o mal.


Série: Game of Thrones
Temporada: 7ª
Episódio: 05
Título: Eastwatch
Roteiro: Dave Hill
Direção: Matt Shakman
Elenco: Kit Harington, Peter Dinklage, Emilia ClarkeLiam CunninghamSophie TurnerAidan GillenNikolaj Coster-Waldau, Maisie Williams, Conleth Hill, Rory McCannIsaac Hempstead WrightLena Headey, John Bradley, Hannah Murray, Jerome Flynn, Tom HopperKristofer HivjuIain GlenJim BroadbentRichard DormerPaul Kaye e Joe Dempsie.
Graus de KB: 2 – Joe Dempsie atuou em Maldito Futebol Clube (2009) ao lado de Michael Sheen, que esteve em Frost/Nixon (2008) ao lado de Kevin Bacon.

 


 

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

One thought on “Crítica | Game of Thrones – 7×05: Eastwatch

  1. Danaerys é burra demais, já cansou. ela e jon se merecem na incompetencia para reinar. Plot twist: na ultima temporada há uma revolução e westeros vira republica. He He He

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