Crítica | Game of Thrones – 7×01: Dragonstone

Algumas vezes o fogo e o destino podem marcar você de formas mais profundas e silenciosas do que seria possível perceber.

O primeiro episódio da sétima e penúltima temporada de Game of Thrones dá ao ponto de partida para o que promete ser a grande conclusão épica que todos desejavam.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em The Winds of Winter, o último episódio da sexta temporada de Game of Thrones.

#GoT (S07E01) – Dragonstone

Eu sou Arya Stark

Como não amar Arya Stark?

Se tem uma coisa que diferencia ela de todos os outros Stark é justamente sua capacidade de entender o mundo a sua volta e responder à altura.

Além disso ela é uma força narrativa que se bem usada faz a trama avançar de forma maravilhosa. Ninguém melhor do que Arya, então, para abrir uma temporada que promete não perder tempo com trivialidades. Afinal, o inverno chegou.

É nítida também a admiração dos produtores pelo sempre fantástico David Bradley. Se você pensava que não teria mais o prazer de ver o seu adoravelmente detestável Walder Frey em cena, bem, pense de novo.

Apesar do primeiro episódio dessa que é a penúltima temporada da série ser um típico episódio de preparação, em momento algum o ritmo é perdido.

Começando a saber das coisas

Vemos Jon Snow (Kit Harington) assumindo as definitivamente o manto de líder e tomando decisões estratégicas contra os exércitos do Rei da Noite ao mesmo tempo que age como um verdadeiro rei que acredita na justiça e no poder do perdão e na força da lealdade. Por mais que Sansa (Sophie Turner) discorde dele. Sansa e Jon parecem se completar bem, e a tensão entre ambos parece tender mais a um equilíbrio que será decisivo para os ajudar a prevalecer sobre seus inimigos.

E a despeito de seus detratores, é mais do que evidente que a clareza de quem são os verdadeiros inimigos vem a ser o elemento determinante a colocar Jon Snow como o mais importante personagem da série, pelo menos da perspectiva da grande luta dos vivos contra os mortos, principal pano de fundo da trama desde o início.

Sem Jon Snow, e sem seus fiéis aliados como Sam Tarly, muito provavelmente o povo de Westeros teria pouca chance de sobreviver à grande noite. Sam (John Bradley), a propósito, protagoniza uma das sequências mais interessantes do episódio, e a cena subsequente, na qual ele contracena com o sempre espetacular Jim Broadbent, apresenta em poucas palavras o mais novo cenário de Westeros e seu papel no grande jogo. Cabe a Sam, também, dar a deixa para o tão esperado encontro entre Jon e Daenerys.

Lar

Daenerys (Emilia Clarke), por sua vez, paira sobre todo o episódio como uma presença e Benioff e Weiss sabem aproveitar bem essa antecipação. A cada virada de cena ansiamos por sua entrada triunfal. Mas ela vem apenas ao final do episódio, com a magistral apresentação de Pedra do Dragão, a fortaleza ancestral de dos Targaryen e seu lugar de nascimento. Daenerys enfim conseguiu o que ela desejava desde o princípio, ela voltou para casa. E o que virá a partir daí definirá o destino de todos nos sete reinos, e talvez além deles.

Há, porém, peças que mais sutilmente aparentemente servem aos desígnios do destino. Estamos falando do Cão. Sandor Clegane sempre foi o mais interessante dos personagens de Game of Thrones pra mim. A complexidade dele talvez só seja menos sedutora do que a de Jamie Lannister. Rory McCann, porém, consegue imprimir tamanha verdade ao atormentado, bruto e simplório guerreiro, que é sem dúvida o representante mais genuíno do que poderia ser um homem de armas medieval, que o faz estar mais próximo do meu coração do que a maioria dos outros personagens.

What goes a hound…

Assim, foi com muita alegria que vi o Cão “retornar dos mortos” na última temporada. E até então não houve um episódio sequer onde sua jornada é apresentada que não houvesse particularmente me agradado. Sim, Sandor Clegane tem uma jornada. E isso fica bem claro nesse episódio. O Senhor da Luz, a divindade que vem atuando das sombras desde o princípio da série, parece ter em Clegane uma importante ferramenta.

O Cão tem um papel a cumprir, assim como seus novos aliados, Thoros de Myr (Paul Kaye) e Beric Dondarrion (Richard Dormer). E esse destino se apresenta ao personagem na forma de uma revelação dolorida e poética, na qual ele, a um só tempo, é confrontado com seu maior temor e com aquilo que ele mais despreza. Curioso como eu jamais havia notado o quão era evidente que um personagem que teme o fogo viria a ser um dos mais importantes servos de um Deus do fogo.

A forma como essas coisas se desenvolvem e se apresentam para nós, a medida que assistimos a Game of Thrones, talvez seja um dos diferenciais da série pra mim. Esse destino, porém, em toda sua grandeza metafísica, não é mais importante do que o confronto de Clegane com aquilo que ele mais despreza: a si mesmo. Ao se deparar com as consequências de seus atos, nesse momento de epifania, Clegane tem outra epifania muito mais importante. Ele pode ser melhor. É essa assunção de consciência que é sacramentada no momento em que ele enterra os corpos dos camponeses. É esse momento que definirá o homem, e talvez o herói que ele virá a se tornar. Ou pelo menos eu assim espero.


Série: Game of Thrones
Temporada: 7ª
Episódio: 01
Título: Dragonstone
Roteiro: David Benioff  e D.B. Weiss
Direção: Jeremy Podeswa
Elenco: Kit Harington, Peter Dinklage, Emilia ClarkeLiam CunninghamSophie TurnerAidan GillenNikolaj Coster-WaldauMaisie WilliamsConleth HillDavid BradleyIsaac Hempstead Wright, Gwendoline ChristieLena Headey, John Bradley, Kristofer HivjuRory McCannPilou AsbækIain Glen, Richard DormerPaul Kaye e Jim Broadbent.
Graus de KB: 2 – Jim Broadbent atuou em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) ao lado do grande e saudoso John Hurt, que esteve emO Carro de Jayne Masfield (2012) ao lado de Kevin Bacon.

 


Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.