Crítica | Neve Negra (Nieve Negra)

Neve Negra” possui um clima interessante de mistério e tensão entre dois irmãos. O longa aborda um drama familiar em forma de suspense. O conflito envolve um fato ocorrido no passado e um no presente. São ao todo quatro irmãos: três homens e uma mulher. O caçula teve uma morte acidental, supostamente Salvador (Ricardo Darín) – o mais velho – foi o responsável pelo tiro que tirou a vida de Juan. Esse acidente causou um enorme trauma na família.

No tempo presente, o pai deles faleceu e Marcos (Leo Sbaraglia), o outro irmão, volta para sua cidade natal para realizar o pedido da figura paterna de jogar as suas cinzas junto ao corpo de Juan, enterrado próximo à cabana onde eles moravam: próximo à cabana onde eles moravam. Além disso, o rapaz também quer acertar a venda do local e com o dinheiro conseguir pagar o tratamento da irmã Sabrina (Dolores Fonzi), que está internada em um hospício. Ele vai junto com sua noiva Laura (Laia Costa) tentar um diálogo com Salvador.

Quando Marcos chega na cabana ele irá enfrentar o trauma do passado. Salvador vive no local isolado do mundo. O reencontro dos dois não será muito amigável, já que o irmão mais velho parece carregar um rancor muito forte do mais novo. Além disso, Salvador não tem nenhum interesse em vender o local onde ele mora.

O roteiro de Martín Hodara e Leonel D’Agostino constrói bem o conflito entre os irmãos alternando entre passado e presente. A cada volta ao passado uma nova parte da história é revelada e com isso o mistério vai sendo desvendado. A montagem de Alejandro Carrillo Penovi usa um recurso interessante: apresenta simultaneamente ações que ocorreram em épocas diferentes. Por exemplo, quando Marcos chega na cabana e sobe as escadas até o segundo andar do local ele tem uma visão de um fato ocorrido na sua juventude como se ela estivesse ocorrendo diante dos seus olhos.

A fotografia de Arnau Valls Colomer também faz a sua parte ao usar bem a pouca luz natural dentro da cabana para criar um clima tenso e pesado, refletindo bem a personalidade do seu morador: Salvador. A falta de luminosidade que faz com que não seja possível enxergar direito as coisas é bem parecido com a sensação que temos ao conhecer o irmão mais velho. O homem parece estar sempre escondendo suas emoções na escuridão.
Os atores contribuem também de forma satisfatória com ótimas atuações ao retratar o conflito dos irmãos. O destaque fica por conta de Ricardo Darín, sempre entregando ótimas performances. Salvador é um homem de poucas palavras, então ele se expressa muito mais com o corpo e com o rosto, principalmente com olhares que misturam tensão e mistério. Fica difícil saber o que está se passando em sua mente.

Entretanto, com menos de 90 minutos de duração, o filme de Martín Hodara peca na resolução do mistério envolvendo a morte acidental de Juan. A forma como é descoberta parece preguiça do roteiro. O conflito entre os irmãos também começa bem, mas tem um desfecho sem graça. Além disso, o clima inicial de mistério e tensão opta pelo caminho mais fácil e falta ao longa um melhor desenvolvimento da sua trama que a faça sair do lugar comum.

Neve Negra” é um filme correto que apresenta bem a sua proposta ao criar um clima misterioso e de suspense envolvendo um drama familiar. Infelizmente, mesmo com a boa atuação de Darín e do restante do elenco, o longa não consegue resolver seus conflitos de forma satisfatória. Os temas abordados são interessantes e polêmicos, mas o diretor Martín Hodara foge deles preferindo ficar em terreno seguro, tornando o seu trabalho apenas competente e nada mais.


Uma frase: – Salvador: “Não podemos sair daqui.”

Uma cena: A chegada de Marcos e Laura na cabana de Salvador.

Uma curiosidade: Algumas cenas foram filmadas em Andorra em busca de neve verdadeira, substituindo o cenário da Patagônia na Argentina.

 


Neve Negra (Nieve negra)

Direção: Martín Hodara
Roteiro: Martín Hodara e Leonel D’Agostino

Elenco: Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Dolores Fonzi, Federico Luppi, Biel Montoro, Mikel Iglesias, Liah O’Prey, Andrés Herrera, Iván Luengo e Javier Kussrow
Gênero: Crime, Drama, Mistério
Ano: 2017
Duração: 87 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.