Crítica | Sense8 – 2ª Temporada

A segunda temporada de Sense8 se aprofunda em um universo intrigante e atraente, aposta no clima de conspiração e na ação, sem abrir mão de seu tema principal: o poder da diversidade.

Se a primeira temporada se tratou de estabelecer em linhas gerais as conexões – literalmente, no caso da premissa da série – entre os oito protagonistas que formam um cluster de “sensatas”, apostando na temática do poder da diversidade para superar as adversidades, a segunda temporada surpreende, positivamente, por avançar dentro da mitologia da série.

Quando a série estreou em 2015 tomou a todos de assalto, provocando reações das mais intensas. Ame-a, ou odeie-a, não há como ficar indiferente à série que surgiu da promissora parceria entre três grandes nomes do entretenimento: as Irmãs Lana Wachowski e Lilly Wachowski – responsáveis por Matrix – e J. Michael Straczynski – autor de grandes obras como Babylon 5 e Rising Stars.

A primeira temporada sem dúvida se esmerou no desenvolvimento das personagens, algo que sem dúvida trouxe ótimos resultados dramáticos: é possível se identificar e se importar com cada um dos membros do cluster – eu prefiro esse termo por grupo ser muito genérico – de sensatas que efetivamente dividem um mesmo “cérebro grupal”.

Claro que esse foco no trabalho de personagens desagradou vários espectadores pouco pacientes ou de disposição, digamos, mais reacionária. A série não se exime de provocar estranhamentos e, associada a poucos momentos de aprofundamento na trama principal – O que são os sensatas? De onde vêm? Quem é o misterioso Sussurros (assustadoramente bem interpretado por Terrence Mann) e quais os objetivos da sinistra organização que os caça, a OPB? – pode ter levado a um cansaço em parte da audiência que imaginou – equivocadamente – que estava assistindo apenas a uma versão panfletária de um mundo de sonhos politicamente corretos.

Sense8, porém, desde o princípio, dava sinais de ter muito mais profundidade do que se poderia imaginar. Estava tudo ali, bem sugerido ao fundo, no excelente argumento e na premissa que estabeleceu um cenário que só poderia ter saído da mente de alguém com uma capacidade singular de criar mundos como Straczynski. Claro, não há nada de exatamente original ali. Mas a forma com que o autor trabalha diversos clichês, os reúne e os adapta com novas roupagens e mais próximo à nossa realidade mundana, não deixam de ser admiráveis.

Descobrimos que os sensatas, por exemplo, são um ramo da evolução do homo sapiens, chamado de homo sensorium; descobrimos ainda que há muitos, muitos outros homo sensorium espalhados pelo mundo e até mesmo uma rede de comunicação neural – similar à internet – entre eles. Há outros cluster, e nem todos são aliados, e todos vivem em um estranho jogo de gato e rato com a OPB – Organização de Proteção Biológica –, uma agência aparentemente fantasma a transnacional, sobre a qual o assustador Sussurros exerce muito poder.

Sim, em grande medida a posição dos homo sensorium lembra muito a posição dos mutantes da Marvel; porém, a imaginação de Straczynski, como já anunciado previamente, sabe colocar tudo isso em um contexto mais realista e intrincado com o mundo contemporâneo no qual vivemos, com altas doses de vigilância e paranoia, extrapolando até que ponto se poderia chegar para se ter o poder de um sensata em um cenário como esse.

Paralelamente a isso vários arcos de personagens se desenvolvem de forma bastante satisfatória, imprimindo ritmo e pessoalidade à série, o que nos mantém preso à mesma. Merecem destaque, por exemplo, o desenvolvimento do arco de Sun (Doona Bae), Capheus (vivido pelo novato Toby Onwumere, que de tão competente, nos faz mesmo esquecer, em determinado momento, que já houve outro Van Damme na série) e, finalmente, mas não menos importante, o Lito de Miguel Ángel Silvestre que simplesmente rouba cada cena na qual aparece.

A propósito, vale destacar que o ritmo é bem distinto do ritmo do especial de fim de ano da série, que pareceu servir mais para apresentar o novo Capheus ao público. Narrativamente, o especial foi mais lento e com poucos desenvolvimentos, funcionando como um ponto e transição entre a segunda e a primeira temporada que havia sido concluída em um cliffhanger cheio de perguntas sem respostas. A segunda temporada, porém, rompe com esse modelo e nos traz a recompensa que tanto desejávamos: começamos a ter respostas e observar a evolução de diversos personagens e linhas narrativas que vão se entrelaçando e expondo um aspecto cada vez mais amplo e assustador de um mundo no qual seres como os homo sensorium podem existir.

Assim, desde o segundo episódio da segunda temporada – o que sucede ao episódio especial de fim de ano – Sense8 se entrega a um mergulho em um universo intrigante e atraente – cuidadosamente criado pela experiente e competente mente criativa de J. Michael Straczynski – , apostando no clima de conspiração e na ação – típica das Irmãs Wachowski – e permite que o tema principal da diversidade permaneça como um subtexto, menos ostensivo, porém não menos relevante.

Tudo mostrado com intensidade e dinamismo, e sem perda de tempo, nos deixando, sem dúvida alguma, na expectativa da terceira temporada. E que venha a terceira temporada, e que esse universo fascinante tenha ainda muito mais a revelar, exatamente como sugere ter.

*O primeiro texto que escrevi para o chiqueiro foi sobre a primeira temporada da série. Nada mais justos que meu centésimo texto seja sobre a segunda temporada.


Série: Sense8
Temporada: 2ª
Episódios: 10
Canal: Netflix
Criadores: J. Michael Straczynski, Lana Wachowski e Lilly Wachowski
Direção: Lana WachowskiLilly WachowskiJames McTeigue e Tom Tykwer.
Elenco: Doona BaeJamie ClaytonTina DesaiTuppence MiddletonMax RiemeltMiguel Ángel SilvestreBrian J. SmithFreema AgyemanTerrence MannToby OnwumereNaveen Andrews  e Daryl Hannah.
Graus de KB: 2 – Daryl Hannah atuou em Entrando na Maior Fria (1998) ao lado de Bruce MacVittie , que esteve em Ele Disse, Ela Disse (1991) ao lado de Kevin Bacon
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Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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