Crítica | Deuses Americanos – 1×01: The Bone Orchard

É sempre um desafio fazer uma adaptação de uma obra, e quando a imaginação de Neil Gaiman está envolvida esse desafio tende a ser consideravelmente maior.

Deuses Americano​s (American Gods) é na opinião de muitos – eu incluso – a síntese de tudo que há de melhor na obra de Gaiman, e durante anos o desafio de transpor essa obra para uma mídia audiovisual passou por várias mãos, até finalmente cair nas mãos do competente Bryan Fuller. (Para mais informações ouça nosso Varacast sobre o tema).

A direção do primeiro episódio da série ficou a cargo de David Slade, que soube imprimir sua marca. O resultado: violência e sangue expostos de uma maneira explicitamente gráfica e que, ironicamente, ajudam a dar um tom à série que a situa na fronteira entre o absurdo e o mundano.

O episódio de estréia, intitulado The Bone Orchard (o Pomar de Ossos) faz referência a um elemento do livro capaz de evocar o exato tom onírico e simbólico apropriado à uma empreitada que pretende lidar com os limites entre crença e realidade, mito e religião. É justamente nessa exploração visual bem sucedida entre o sonhar e o real (?) que a série de TV é mais bem-sucedida em traduzir Gaiman.

O ritmo da série é certamente diferente do livro. E é difícil decidir se isso bom ou ruim. Na obra de Gaiman, uma novela, a exploração da trama principal não é linear. Na série de TV Bryan Fuller optou por ir direto ao ponto e estabelecer de imediato o conflito da premissa como ponto central. Isso sem dúvida pode funcionar melhor para o público típico da linguagem de TV, mas talvez frustre um pouco os leitores – como eu – talvez esperassem que de alguma forma a prosa sobrenaturalmente​ cadenciada e envolvente de Neil Gaiman pudesse ser, de alguma forma, transposta para a telinha.

Mas Deuses Americanos não é apenas uma história sobre o sobrenatural. É uma história sobre encontrar seu lugar no mundo. Ou melhor, encontrar seu lugar em um Novo Mundo. Um mundo não no qual não se conhece as regras e a solidão e o estranhamento são ponto comum. Ou seja, é uma série que tratará, em seu subtexto, sobre a questão da imigração e do multiculturalismo, e seu conflito com as forças opressoras de um novo mundo artificialmente ascético que reduz a identidade de todas as coisas a uma homogeneização degradante; um mundo que explora a clivagem entre o moderno e o antigo, e de forma inclemente sepulta esse último, que porém – como veremos simbolicamente bem representado – insiste em permanecer insepulto

Conhecendo o viés político que sempre costuma atravessar os textos de Bryan Fuller é de se esperar que temas dessa natureza estejam presentes a todo momento em Deuses Americanos; e o tom onírico, mítico e simbólico sobre o qual a narrativa se sustenta proporciona a autores como Fuller a possibilidade de explorar esses temas de maneira nada expositiva, porém intensa. Tomemos por exemplo a cena que mostra Bilquis (Yetide Badaki). Talvez seja um dos momentos mais fortes da TV nos últimos anos, conduzida de forma bela e estarrecedora, tanto pelas imagens quanto pelo simbolismo. Não há libelo maior em favor do feminismo e da luta contra o racismo em um só ato, e que a um só tempo, carregue consigo também todas as contradições dessas lutas.

Desde o início, enfim, Deuses Americanos não tem qualquer pudor em se apresentar como aquilo que pretende ser: uma série que trabalha com elementos sobrenaturais e mistério, com um toque de Road Movie e um pouco de histórias de golpes e trapaças. Porém que usa isso principalmente como uma carapaça, um disfarce, para carregar uma mensagem mais profunda.

Apesar de isso, como dito acima, ser um fator que pode desapontar um pouco aqueles que esperam a exploração cadenciada do mistério típica das obras de Neil Gaiman, por outro lado, isso pode ser bastante positivo para atrair audiências mais tipicamente habituadas à linguagem da TV bem como os mais jovens (sem dúvida a escalação de Ricky Whittle, egresso da série pós-apocalíptica teen, The 100, é também um aceno nesse sentido).

O elenco, a propósito, está muito bem. O já citado Ricky Whittle consegue personificar bem o sorumbático Shadow Moon, um personagem que, aprenderemos, esconde uma enorme profundidade sob camadas intencionais de superficialidade. Pablo Schreiber também está muito bem como Mad Sweeney, e eu tenho a impressão que a participação do personagem será maior na série do que no livro. Mas sem dúvida alguma quem rouba a cena é Ian McShane. Seu Mr. Wednesday é tudo que eu esperava do personagem: todo charme, elegância e uma sincera e desconcertante desfaçatez. Difícil não ser seduzido de imediato simplesmente pelo seu tom de voz.

A química entre McShane e Whittle também merece destaque. Os diálogos entre ambos são o ponto alto do episódio. Em algumas poucas palavras trocadas entre esses personagens aprendemos quase tudo que precisamos saber sobre quem eles são em essência, bem como seus propósitos (ou falta deles). Como a relação entre ambos também compõe a espinha dorsal da narrativa da série, esse é um excelente indicativo. Por fim, uma dica: fique atento ao colega de prisão de Shadow, com quem ele também tem alguns diálogos bem ilustrativos. Ele não está ali por acaso.

Ainda há muito o que se observar acerca da série, mas me parece correto afirmar que a mesma teve um início satisfatório. Não me parece, porém, o tipo de série que venha a ter o mesmo apelo que grandes séries de sucesso como Game of Thrones ou mesmo Westworld. Ao contrário, me parece que, na linha das outras criações de Bryan Fuller, Deuses Americanos tenda a seguir um caminho mais cult, afastando muito da audiência mainstream menos acostumada a propostas que recorrerem a uma linguagem visual e uma temática, a um só tempo, pouco convencionais.

*No Brasil, Deuses Americanos vai ao ar todas as segundas-feiras pelo canal de streaming Amazon Prime.


Série: Deuses Americanos (American Gods)
Temporada: 1ª
Episódio: 01
Título: The Bone Orchard
Roteiro: Bryan Fuller e Michael Green
Direção: David Slade
Elenco: Ricky Whittle, Pablo Schreiber, Jonathan Tucker, Betty Gilpin, Siobhan Fallon HoganEmily Browning e Ian McShane.
Graus de KB: 2 – Ian McShane atuou em Pottersville (2017) ao lado de Michael Shannon, que esteve em O Lenhador (2004) ao lado de Kevin Bacon
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Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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