Crítica | Fome de Poder (The Founder)

McDonald´s, Fast food… Hoje essas palavras são bastante comuns. Mas de onde elas surgiram? Quem inventou isso com certeza deve estar rico hoje, né? Talvez não tanto quanto você imagina. “Fome de Poder” responde essas questões ao mostrar uma das histórias que melhor retratam o preço a se pagar em busca da realização do “Sonho Americano”.

O Fundador‘ é o título original do filme e, curiosamente, era assim que Ray Kroc (Michael Keaton) começou a se apresentar após um determinado tempo. Kroc era um vendedor que se tornou um empresário de grande sucesso graças a McDonald´s. E o que ele fez? Em suas próprias palavras: ele foi persistente. O que ele criou? Um império.

Ray Kroc era um vendedor, que apesar de ter uma vida confortável, estava sempre mirando em algo melhor. Um homem bastante ambicioso, que não se conformava ser apenas classe média. Aos 52 anos Ray vendia máquinas de fazer milk-shake e sua vida era basicamente viajar em busca de interessados no produto. Um dia, ao fazer uma entrega em uma lanchonete chamada McDonald´s – até então desconhecida no mundo – ele se encanta com o modelo de negócio do local. Hambúrgueres prontos na hora, sem ter que esperar. Sem talheres para comer, a comida é entregue num saco de papel, o qual o próprio cliente se encarrega de jogar fora. E o pedido é feito direto no caixa, sem a necessidade de um garçom: algo inovador no ano de 1954, quando a trama começa, uma vez que a moda EUA eram as lanchonetes no formato drive-in, no qual os clientes estacionam o carro no estacionamento e alguém vai atendê-los.

O formato criado pelos irmãos McDonald: Maurice “Mac” McDonald (John Carroll Lynch) e Richard “Dick” McDonald (Nick Offerman), era revolucionário. O esquema para a preparação da comida na cozinha lembrava muito a linha de montagem de uma empresa automobilística. Algo que talvez Henry Ford teria pensado. Dessa forma, os hambúrgueres e batatas-fritas seguiam um controle que mantinham sempre a qualidade e padronização do resultado final.

Ray ficou louco quando viu aquilo. Ele queria transformar o formato numa franquia e abrir várias filiais da lanchonete. Ao contrário dos irmãos McDonald que tinham uma visão bem específica do que queriam: manter, acima de tudo, o controle de qualidade; já que eles tinham feito tentativas anteriores não bem sucedidas. Aí entrou a persistência e insistência de Krock em convencê-los a dessa vez fazer da forma certa.

O filme segue um tom de fábula, ao mostrar Ray como uma figura carismática, por mais que seus metódos não fossem nem um pouco sutis. Sua ambição o transforma, aos poucos, em um sujeito que irá fazer de tudo para alcançar seu objetivo.

Temos aí a grande ironia por trás da realização do sonho americano de que basta ter uma boa idéia e trabalhar duro que o objetivo será alcançado. Vemos aqui que não é bem assim. Ray passa por cima dos irmãos McDonald e de certa forma rouba a idéia deles, transformando a lanchonete em um grande império americano. Enquanto Kroc ficou milionário, Mac e Dick receberam uma indenização, mas perderam o direito de usar o nome na sua própria lanchonete.

O roteiro segue o caminho convencional de uma biografia e acerta ao focar apenas no período inicial da transformação da McDonald´s em uma franquia. A história é forte, tem diversos personagens, mas ao focar em Ray fica mais fácil entender o surgimento da lanchonete. E também do quão importante ela se tornou na história dos EUA. O filme mostra que no mundo real colocar em prática um sonho não é uma tarefa fácil, e que ainda existe o risco de você ser “esmagado” por alguém mais “esperto”. Capitalismo selvagem, como diria a música “Homem Primata” do Titãs.

O grande destaque do filme é a atuação de Michael Keaton. Ele consegue transformar o personagem em alguém carismático, por mais que suas atitudes tenham sido cruéis. Um sujeito que acredita que os fins justificam os meios. Quando ele fala olhando para a câmera, parece estar falando diretamente para o espectador. Isso cria um elo forte entre personagem e público. No início vemos um homem apenas interessado em melhorar de vida, mas cuja ambição aos poucos o transforma em uma pessoa que irá passar por cima de quem for em busca do seu objetivo. O vemos no início do filme usando ternos de cores claras, mas quando ele começa a se vestir de preto, fica visível sua mudança de comportamento. Como se tivesse sido seduzido pelo lado negro da força, ou melhor, do capitalismo.

Mesmo optando por realizar um filme tradicional, o diretor John Lee Hancock apostou, de maneira acertada, no poder da história que ele queria contar. Mesmo com um tom mais de fábula e pouco crítico, Fome de Poder mostra bem o lado cruel da realização do sonho americano.


Uma frase: – Ray Kroc: “Você sabe que contratos são como corações, eles foram feitos para serem quebrados.”

Uma cena: A primeira vez que Ray Kroc vai na McDonald’s .

Uma curiosidade: Enquanto as filmagens de longa-metragens geralmente duram cerca de doze horas por dia, as gravações deste filme duraram entre oito e dez horas. A razão: o diretor John Lee Hancock. Ele veio preparado para as gravações e não errou uma única tomada. No final, o longa foi filmado em apenas 22 dias..


Fome de Poder (The Founder)

Direção: John Lee Hancock
Roteiro: Robert D. Siegel
Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Linda Cardellini, Patrick Wilson, B. J. Novak e Laura Dern
Gênero: Biografia, Drama, História
Ano: 2016
Duração: 115 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

3 thoughts on “Crítica | Fome de Poder (The Founder)

  1. Parece ser um filme interessante, principalmente pela história que deseja contar, mas a sensação que eu tenho é a de que o trailer já revela todas as nuances da trama e da personagem principal. E isso sempre me deixa com um pé atrás em relação ao filme. Como poderei ser surpreendida, agora?? rsrs

  2. Comecei com vontade de comer um Big Mac, terminei com ódio no coração.

    É óbvio que o mundo corporativo é assim e muitos acham que isso é o “certo”, afinal, tubarão tem mesmo que comer peixe pequeno, mas eu não consigo lidar com a escrotidão que é esse American Dream.

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