Crítica | Eu, Daniel Blake

Um dos pontos altos da carreira do diretor Ken Loach, Eu, Daniel Blake é um drama social atual e relevante. O filme transmite a realidade desoladora de muitos com tanta eficiência que deveria fazer parte de aulas de sociologia. E ser motivo de conversas entre cinéfilos.

Após sofrer um infarto e ser impedido de trabalhar pelo seu médico, Daniel Blake tenta ir atrás dos benefícios que o governo supostamente lhe deveria assegurar. Infelizmente, diante dele se instala uma gigantesca burocracia, que vai desde a inesgotável musiquinha de espera no telefone até a má vontade de funcionários públicos. Por desconhecer o funcionamento dos computadores e da internet, tudo fica mais difícil para o Sr. Blake.

Em uma de suas idas e vindas em busca do benefício, ele conhece e se compadece de Katie. Ela é uma mãe solteira que se vê obrigada a mudar de cidade e enfrenta sérios problemas financeiros. Ela não consegue pagar a conta de luz e tem dificuldades para comprar os alimentos do dia. A situação dela chega no limite em uma cena inesquecível.

Eu, Daniel Blake é um filme forte e verdadeiro. Trata-se da saga de um membro da vulnerável classe trabalhadora lutando contra um Estado aniquilador e indiferente. Vários detalhes deixam a experiência mais realista e contundente, como quando vemos Katie roubando produtos de higiene tão essenciais para ela. E as atuações de Dave Johns e Hayley Squires deixam tudo mais impactante e emocionante.

Testemunhamos com indignação como o sistema brutal vai minando as esperanças das pessoas. Não precisamos olhar muito longe para constatarmos que o governo muitas vezes ajuda quem não precisa e deixa desamparado um cidadão de bem como Daniel Blake.

Também é triste perceber como um filme com um assunto tão pertinente não recebe a atenção que merece e as regurgitações hollywoodianas proliferam como pragas.

Eu, Daniel Blake não venceu Aquarius em Cannes à toa.


5 Kevin Bacons

Uma frase: Eu conserto qualquer coisa, menos computadores!

Uma curiosidade: O filme foi aplaudido por 15 minutos na premiere em Cannes.

 

 


Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy
Gênero: Drama
Ano: 2016
Duração: 100 minutos
Info: IMDb

3 thoughts on “Crítica | Eu, Daniel Blake”

  1. Esse eu não sei se vou conseguir ver no cinema, mas estou bem interessado.
    Esse diretor é especializado em fazer dramas de pessoas comuns inglesas, mas conheço pouco a filmografia dele.

  2. Eu só não gosto da expressão “cidadão de bem” porque sempre me remete a um tipo de pessoa que não é, de fato, de bem, mas isso é outro assunto hehehe.

    Quanto ao filme é realmente muito bom e deveria ter melhor atenção e espaço, mas a própria história mostra que àqueles que mais precisam não conseguem o mínimo não é mesmo?

    Outra coisa que uma produção como esta mostra é que, ao contrário do que muitos pensam, problemas que achamos que só acontecem no Brasil ou em países de terceiro mundo também estão presentes nos países ricos e que são sonhos para muitos aqui.

    Essa segregação com os desamparados (e aí temos vários níveis até mesmo os “segregados digitais”) é um assunto que merece uma discussão ampla e ações contundentes.

    Um grande filme que só vi agora na Netflix.

    1. De fato. Nem tudo funciona de maneira perfeita no primeiro mundo. Sofri junto com Daniel Blake, um cidadão… do bem?! hahaha

      Não sabia que tinha na Netflix. Espero que o filme conquiste mais público.

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