Crítica | 3%

Com seus oito episódios estreando simultaneamente na Netflix, 3% mostrou-se um seriado incapaz de sustentar a boa premissa. Apesar dos erros evidentes, é possível e até justo valorizarmos o empenho dos envolvidos nesta produção brasileira.

A sociedade distópica mostrada em 3% é bem dividida. No Continente, temos a pobreza e falta de perspectivas. Em Maralto, a certeza de uma civilização perfeita. A única maneira de chegar ao Lado de Lá é através do Processo, uma mistura de testes e avaliações que seleciona apenas três por cento dos participantes. Como Ezequiel, o chefe do Processo, gosta de dizer: você é o criador do seu próprio mérito.

Será?

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As provas são as mais variadas possíveis, algumas potencialmente perigosas outras um tanto tolas. Particularmente, gostei daquela em que o grupo precisa adivinhar o que ocorreu em um jantar. Cada um teve que se esforçar ao máximo para observar e interpretar as coisas. Teve até uma reviravolta!

O bom ritmo e a intensidade dos dois primeiros episódios vão se perdendo com o decorrer da temporada. E aí os problemas de 3% aparecem com mais evidência.

Com algumas exceções, o elenco de 3% é extremamente fraco. Sequências que deveriam apresentar uma grande carga emocional são desperdiçadas por atores que soam artificiais. Alto nível mesmo, apenas João Miguel.

Infelizmente, muito do seriado soa como uma cópia mal feita de filmes como Batalha Real, Jogos Vorazes, Divergente e do livro 1984 de Orwell. Para conseguir destaque em um assunto já saturado é necessário possuir muita qualidade e pelo menos um ar de originalidade. Não é o caso aqui.

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Existe um grupo que tenta lutar contra esse sistema. A Causa busca sempre infiltrar seus membros no Processo, o problema é que os objetivos e a maneira deles agirem não ficam claras.

Flashbacks eventuais garantem um desenvolvimento mais apropriado para certos personagens. Ezequiel, por exemplo, tem um arco narrativo decente. Infelizmente, 3% investe em situações forçadas e supostamente dramáticas, às vezes até de um jeito apelativo.

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A crítica social em 3% é bem-vinda, mas subaproveitada.

Haveria espaço para discussões mais aprofundadas em relação ao mundo concebido em 3%. Talvez por falta de recursos financeiros ou por preguiça, muita coisa foi deixada de lado. Imaginem que interessante seria poder ver a rotina no Continente. ou dar uma espiada em Maralto vislumbrar a suposta sociedade perfeita? E a Causa? Quem são eles e o como eles pretendem ter sucesso nas suas intenções?

Se formos minimamente rigorosos, podemos notar vários problemas em 3%. Muitas reações de personagens soam absurdas. Eles mudam de ideia de uma hora para outra, sem uma explicação plausível. E o que dizer da incompetência do Processo, que dá chances para participantes de índole duvidosa? Se o objetivo é ter e manter uma sociedade funcional, os aprovados deveriam ter no mínimo atitudes corretas durante as provas. O fato é que a injustiça desse sistema é clara e algumas pistas revelam que o Maralto está longe de funcionar às mil maravilhas.

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É uma pena que uma ideia promissora acabou se transformando em uma minissérie cheia de irregularidades. Não podemos negar o esforço dos responsáveis por 3%, mas o amor pela nossa pátria não pode nos cegar em relação a mediocridade destes 8 episódios.

Um entretenimento razoável e descartável, eis o resumo da primeira temporada de 3%.


3%

Ano: 2016
País: Brasil
Estreia: 25/11/2016
Primeira temporada
1×01: Cubos
1×02: Moedas
1×03: Corredor
1×04: Portão
1×05: Água
1×06: Vidro
1×07: Cápsula
1×08: Botão

Fã de sci-fi que gosta de expor suas opiniões por aí! Oinc!

7 thoughts on “Crítica | 3%

    1. pois é, Ramon. eu realmente me empolguei com o começo, mas depois o seriado foi se perdendo e deixou de aproveitar boas oportunidades. as atuações fracas atrapalham muito.

  1. Infelizmente as falhas se sobressaíram às pequenas coisas boas e interessantes que essa série trouxe. Confesso que mais torci, do que gostei de 3%

    Atuações em sua maioria sofríveis, furos no roteiro, trama pouco instigante, mas de qualquer sorte foi um passo para produções nacionais na Netflix. Espero que para frente…

      1. Achei a série realmente boa. 4 bacons (na verdade, 3,5. Mas o chefe não gosta de nota quebrada…).
        Na minha opinião, é uma das poucas séries que não tem barriga, pelo contrário: tem história pra manter o interesse nos 8 episódios e ainda sobra pra uma segunda temporada. Não achei as atuações ruins, salvo um ou outro (acho que a maioria das pessoas têm um certo desconforto por não estarem acostumadas com atuações em português. Quando você vê algo em sua língua nativa, fica mais fácil reparar detalhes do que quando está assistindo algo em língua estrangeira, o que faz com que as pessoas se tornem especialmente críticas). Chamar de “Malhação pós-apocalíptica” só mostra como o patrão está de má vontade…
        A comparação com Jogos vorazes e demais fantasias distópicas cabe, mas acho MUITO melhor do que o Battle Royale por exemplo (esse acho ruim demais!!). Não senti falta de cenas em Maralto, até por imaginar que isso seria explorado numa continuação.
        Adorei a estética do “lado de cá”: um pós-apocalíptico favela, muito mais interessante do que o Distrito 12 – paraíso bucólico de Jogos Vorazes. A repressão do “lado de lá” ser colocada como algo próximo da ação policial nas favelas brasileiras é algo bem interessante.
        O aspecto místico-religioso do processo (colocado no pai-Pastor do Fernando) é excelente, se comparando aos melhores pontos da mitologia de Mad Max.
        Enfim, 3% foi melhor do que 3/4 das coisas que assisti em 2016. Muito melhor do que todas as séries da Marvel. Porém, enquanto essas são assistidas com uma condescendência fanboy, 3% foi recebida com uma frieza vira-lata.
        Ps: não deixa de ser simbólico o fato de que quando estava procurando saber da série eu tenha visto resenhas em inglês entusiasmadíssimas e resenhas em português – principalmente nos “meios nerds” – desabonadoras. 3% é uma série cujo maior “pecado” é não ser exatamente igual a uma série americana… )

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