Crítica | Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016)

Novo filme da franquia cinquentenária não atravessa fronteiras, porém está à altura dos seus predecessores.

Quando J.J. Abrams reiniciou a franquia mais longeva da ficção científica no cinema, ele tinha uma visão bem clara em mente. Era necessário atrair sangue novo para um universo estabelecido há quase 50 anos, com extenso material produzido para a TV (foram 5 séries da franquia ao longo desse tempo), cinema (ao todo 10 filmes), muitos livros e séries de quadrinhos; ou seja, uma máquina de afastar novos fãs. Some isso ao fato do fãs da franquia – os Trekkers – serem consideradas pessoas, digamos, “pouco divertidas” e se tem uma noção da imagem que a franquia tem e do tamanho do desafio de Abrams.

Porém o menino com o toque de Midas da cultura pop na atualidade mais uma vez se saiu bem e entregou com bastante competência um produto bem acabado. Uma espécie de reboot da franquia, mas que ao se situar em uma linha de tempo alternativa e dialogar diretamente com personagens da franquia clássica, foi capaz de manter os Trekkers de longa data satisfeitos e atrair novos fãs. A presença de Leonard Nimoy, interpretando seu eterno Sr. Spock da série clássica, no filme de 2009 serviu como uma espécie de benção que sacramentou essa nova ‘jornada’.

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Esse admirável mundo novo apresentava uma espécie de história de origem para os mais importantes personagens da série, Spock e Kirk (vividos peles ótimos Zachary Quinto e Chris Pine), com um foco maior neste último. O intrépido, impulsivo e temerário jovem rebelde sem causa que viria a se tornar o mais célebre capitão da mais famosa nave espacial da cultua pop. A proposta foi acertada ao nos arrastar para dentro da vida de James T. Kirk e mostrar pela primeira vez todas as fragilidades e desenvolvimento de um personagem icônico.

O terceiro filme desse novo momento, Star Trek: Sem Fronteiras, atento a isso, fecha de maneira satisfatória o arco desse personagem. O Kirk que vemos nesse filme está mais amadurecido e tem dúvidas sobre sua posição como Capitão da Enterprise. Como seu velho amigo Bones McCoy (Karl Urban) o lembra, ele entrou na frota para provar algo em nome do pai dele e havia conseguido. Agora era hora de ele descobrir em si próprio essas motivações. Na mesma medida encontramos Spock tentando se ajustar ao seu dilema que o divide entre a preservação de sua espécie e sua missão na Frota estelar. Nesse ponto temos uma singela e merecida homenagem à Leonard Nimoy, que também é aproveitada de forma significativa pelo roteiro, honrando ainda mais a memória do ator que faleceu no ano passado.

O roteiro do filme é do também ator Simon Pegg que na trama interpreta Scotty, o engenheiro da Enterprise. Pegg é um Trekker e nerd de nível 35, pelo menos, e conhece tudo e mais um pouco sobre a franquia como um todo. Além de também ser um escritor de mão cheia. Isso dá ao filme um tom de homenagem a cada frame, fazendo uma série de referências à franquia como um todo, todavia de forma natural e que passa despercebida para aquele que não é trekker, mas que agrada quem é. No fim das contas, Pegg faz o que qualquer roteirista inteligente deveria fazer: usa um cenário já bastante rico e bem estabelecido para prover um background à sua história que apenas a torna mais rica e interessante.

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Outro ponto onde o roteiro acerta é a sua simplicidade. Pegg narra uma história simples, em três atos, e muito bem desenvolvida. Não há nenhuma grande reviravolta pretensamente genial. Os objetivos são claros e bem definidos e o desenrolar da narrativa propicia espaço de tela suficiente para explorar aquilo que há de melhor na Enterprise: seus tripulantes. Pegg, quase que antevendo um exercício de interpretação – como é bom ter um ator escrevendo, às vezes – retira os personagens de suas zonas de conforto de relacionamentos, explorando novas interações e propondo novas dinâmicas que servem para valorizar cada um dos membros da tripulação e, no fim das contas, levar a audiência a se envolver ainda mais com a Enterprise.

A direção de Justin Lin é bastante competente e parece respeitar o roteiro. Os cacoetes de diretor de ação estão presentes porém, e em alguns momentos a câmera de Lin retira um pouco da clareza da narrativa. Lin talvez não tenha sabido trabalhar muito bem com a fotografia para uma série com cenas no espaço, e o resultado negativo disso é exponencialmente ampliado em mais um 3D pessimamente utilizado na indústria. A edição também poderia ter optado mais pela fluidez e clareza narrativa de alguma sequências, mas no cômputo geral, sobressai a competência do diretor em saber conduzir bem uma trama com muitos personagens e contar uma boa história com ritmo e emoção.

No fim das contas, Star Trek: Sem Fronteiras talvez ainda não seja a obra cinematográfica que essa longeva franquia – dia 08 de Setembro ela comemora 50 anos – merece no cinema, mas é uma película bastante coerente com a nova proposta lançada por J.J. Abrams para a nova geração de fãs. Cumpre bem seu objetivo de encerrar um ciclo e deixa os caminhos abertos para mais uma jornada que deve começar em breve (o quarto filme já foi confirmado pela Paramount).

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Na essência, Star Trek: Sem Fronteiras é fiel ao seu espírito e cumpre bem o papel de reafirmar à essa nova geração qual a essência da Federação. Mais cedo ou mais tarde precisamos parar de buscar a guerra e enfim enfrentar o desafio de construir a paz. E o mundo precisa disso.


1 (Kevin) Bacon

Uma frase: Você se uniu à Frota estelar para estar à altura de seu pai. Você passou todo esse tempo tentando ser seu pai. Agora você está se perguntando, o que significa ser você.

Uma cena: A Entreprise recorre ao auxílio dos Beastie Boys para derrotar o inimigo! Música clássica é tudo!

Uma curiosidade: O nome da nave USS Franklin no filme é uma homenagem ao pai do diretor Justin Lin, Frank Lin.


 Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016)

Direção: Justin Lin
Roteiro: Simon Pegg, Doug Jung
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl UrbanJohn ChoZoe SaldanaSimon PeggSofia Boutella e Idris Elba.
Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi.
Ano: 2016
Duração: 122 min.
Graus de KB: 1²! – Chris Pine e Kevin Bacon estiveram juntos em Beyond All Boundaries (2009), e John Cho e Kevin Bacon estiveram também juntos em Ligados Pelo Crime (2007)!

 

 

 



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

5 thoughts on “Crítica | Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016)

  1. A direção de Justin Lin compromete um pouco o filme. As cenas de ação são bem confusas. O 3D é bizarro e atrapalha mais do que ajuda. Ele chegou ao ponto de criar uma cena de perseguição de naves pelo vício adquirido na franquia Velozes e Furiosos (risos). Mas o roteiro e o elenco são muito bons e acabam compensando esses problemas de direção. Eu classificaria como 4 bacons, mas respeito os seus 3.

  2. Achei que o terceiro ato talvez tenha sido o menos legal, mas é bem divertido realmente e acho que concordo com os 3 bacons na nota.

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