Crítica | Game of Thrones – 6×02: Home

“Home”, talvez seja um dos mais importantes episódios de toda a série Game of Thrones.

A importância do segundo episódio da sexta temporada emana não tanto de seu conteúdo, mas por demarcar um ponto de inflexão na longa e dolorosa jornada narrativa pelo trono de ferro de Westeros.

Já faz algum tempo a rede vem repercutindo informações, oficiais e extraoficiais, que dão conta de que a série se aproxima de seu fim. Na noite de 01 de maio de 2016 isso ficou bastante evidente. Game of Thrones ruma para seu clímax e consequente encerramento.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em Home”, o segundo episódio da sexta temporada de Game of Thrones.

Elementos não evidentes de um narrativa épica

É curioso notar que é possível antecipar aqueles que torçam o nariz para as decisões dos criadores da série nesse episódio. A justificativa da crítica: a série teria se rendido ao mainstream e perdido sua principal e mais atraente característica que seria a capacidade de surpreender justamente por se afastar de clichés. Essa crítica parece ficar ainda mais evidente quando levamos em conta a situação de que não há mais livros para dar respaldo à narrativa da televisão, o que teria autorizado os realizadores da adaptação a fazer algo que Martin jamais fizesse.

Infelizmente quem pensa assim, não compreendeu ainda muito bem que história George Martin estava, desde o princípio, se propondo a contar, e a que artifícios narrativos ele recorreu para apresenta-la da forma peculiar que conquistou milhões de pessoas ao redor do mundo. Não, a história de Martin não é sobre mortes cruéis, esquartejamentos, estupros, e toda aparente aridez que o mundo deve ter, para que seja verossímil. Martin está contando um épico de fantasia, desde a sua primeira página, e com impressionante maestria, fazendo o mundo não se dar conta disso.

Isso porque o principal recurso narrativo de Martin é a narrativa intimista desenvolvida a partir do ponto de vista de personagens envolvidos dentro de uma trama evidentemente maior que eles, cuja os eventos lhes atropelam, de maneira inclemente, a todo instante. É daí que brota o aparente “realismo” de Game of Thrones. Mas isso tudo é um grande truque de fumaça e espelhos. O centro da narrativa não é outro senão a jornada de um herói, ou melhor dizendo, de heróis, que se desenvolvem ao longo de excruciantes provações para enfim se apresentarem como detentores das chaves da salvação, seja através de seus triunfos, seja através de seus sacrifícios.

Os elementos fantásticos, afinal, sempre estiveram lá para quem quisesse ver. Todavia, em um mundo árido e cinzento como o nosso, sangue, morte e destruição implacável parecia ser o que conquistava as audiências e o critério determinante para a verossimilhança e pretensa inovação. Fogo e sangue, como lembra o brasão da casa Targaryen, parecem ser o único parâmetro para aferição de qualidade.

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Felizmente Martin, narrador experiente, percebeu isso, ao mesmo tempo em que sabia muito bem a estrutura de história que estava contando. Diante de nossos olhos, assim, ele fazia desfilar dragões, mortos-vivos, maldições, profecias, dons premonitórios e de ilusão mágica além de qualquer explicação, deuses novos e antigos e seus clérigos com poderes até mesmo de ressuscitar os mortos. Mas tudo isso era escondido, desenvolvido como mero pano de fundo, enquanto a narrativa evidenciada se concentrava nos conflitos políticos pelo trono de ferro. Conflito esse travado por seres mortais, gananciosos e egoístas, e muito atraentes justamente por suas falibilidades humanas, que os conduziam a erros e consequências por vezes grotescas.

O aparente desapego a todo e qualquer personagem mais importante dava um tom e um sabor a mais. Mas tudo isso era apenas aparência também. Ante uma imensa miríade de personagens, ficava fácil matar diversos como moscas, e fazer alguns poucos dos mais importantes sofrer horrores, à medida que eram esses sutilmente conduzidos em suas jornadas de amadurecimento, ou melhor dizendo, em suas jornadas de herói, conduzidos em sua formação em direção ao grande clímax que envolve não a luta pelo trono de ferro, mas sim a luta mais determinante da humanidade desde a sua existência. A luta da vida contra a morte. Do fogo contra o gelo. A luta contra o inverno.

Durante cinco anos vimos os homens e mulheres dos sete reinos, consumidos por suas ganâncias e paixões, se lançarem em um turbilhão descendente de autodestruição, exatamente como a humanidade sempre o fez na história do mundo. Esses relatos mesquinhos, por assim dizer, conduziam o primeiro plano da narrativa, sendo um motivador de fato mais inteligente do que grandes buscas épicas empreendidas corriqueiramente nas jornadas dos heróis clássicos. Talvez esse tenha sido o grande segredo de Martin: construir a jornada do herói recorrendo a motivadores de seus personagens altamente mundanos.

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Mas não havia dúvida que a grande ameaça existia e que avançava, absolutamente impassível e inexorável. O inverno, simbolizado e simbolizando a morte na figura dos caminhantes brancos. E quando ela finalmente se apresentou e se chocou diretamente com os principais personagens da série, não havia dúvidas de que, apesar de haverem mortos-vivos, não era a um episódio de The Walking Dead que estávamos assistindo. Era a mais pura essência das aventuras de fantasia medieval, tão exaustivamente reproduzidas por jovens nerds que varavam suas noites em mesas de RPG, com espadas mágicas destruindo inimigos implacáveis e aparentemente invencíveis. Algo, enfim, extraído diretamente de nossos mais molhados sonhos geek de adolescência, porém conduzido com tanta maestria narrativa que até mesmo aquela sua namorada – hoje sua esposa – que jamais teve paciência para suas mesas de RPG não poderia deixar de se render à beleza daquela trama.

Aquilo que constitui uma narrativa épica (ou, a jornada do herói)

Para não ficar apenas na análise metalinguística, vamos recorrer a alguns elementos objetivos da narrativa do episódio da semana. Vemos enfim Bran Stark (Isaac Hempstead Wright) retornar e seu importante papel como representante vivo de um narrador onisciente passa a se desenvolver na trama. Bran servirá, na série, para dar explicações fundamentais que soariam artificiais se providas de outra forma. E preciso entender melhor elementos do passado, afinal, para que o futuro próximo fique mais compreensível. Assim vemos a visão de Bran literalmente ser atraída pela presença mesmerizante de Lyanna Stark, aquela que, tal como Helena de Tróia, servira no passado como estopim de uma guerra. Na próxima semana a tão esperada narrativa acerca daquilo que aconteceu na famigerada Torre da Alegria será revelada, e enfim veremos importantes elementos que repercutem e determinaram o destino de certos eventos até os dias atuais.

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Isso é importante para afirmar que no universo meticulosamente construído por Martin de fato a narrativa maior transcende a qualquer personagem. O que não significa dizer que cada um deles, uns mais do que outros, não tenham importância chave para o desenrolar da trama mesmo em um sentido macro. Game of Thrones não é outra coisa, afinal, senão uma história de personagens, não sendo possível assim que eles não tenham qualquer importância e sejam sempre e apenas expectadores e vítimas dos eventos. Sim, muitas vezes eles são protagonistas capazes inclusive de definir os destinos das coisas.

O que nos leva aos pontos mais importantes da narrativa: de um lado a luta pelo poder, a matéria e forma do mesmo – em uma clara referência a Thomas Hobbes e sua obra -, e de outro a luta da vida contra a morte, sustentada na jornada de um herói, previsto em profecias e com uma vida envolta em uma origem nebulosa e sacrifícios.

O poder na série é representado pelos dragões. E não há personagem melhor na série para, entre um gole de vinho e outro e mesmo com a mente embotada pela embriaguez, nos prover uma aula sobre o poder do que Tyrion Lannister. O poder domado não é poder. Uma das características da Soberania não é outra, senão, sua condição de supremacia. Trata-se de um equilíbrio delicado com o qual os grandes pensadores da política se confrontam desde o princípio dos tempos, entre o poder soberano e a convivência harmônica e moralmente comum em uma comunidade de política. Sem um poder soberano, não há força que garanta a paz e a segurança, diria Hobbes. Mas um soberano preso a grilhões, é tão eficiente quanto o gatinho doméstico sem garras e sem presas.

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Talvez seja nesse episódio que Tyrion Lannister (Peter Dinklage) sintetize com mais força aquilo que ele representa em toda a série: o homem que como poucos compreende, por conhecimento, experiência e aptidão, com grande profundidade, as profundezas da intricada e complexa matéria e forma do poder. Chega a ser tocante quando ele revela aos dragões um episódio de sua infância. E naquele gesto de extrema bravura – e tolice – Tyrion não apenas acentua o maior erro de Daenerys, e aquilo que fez merecer a sua derrocada, mas comprova aquilo que ficou evidente desde que os dragões abriram suas asas sobre Westeros: o preço da manutenção do poder é reconhecer a plenitude de sua força e saber que não é possível lhe impor grilhões sem que as consequências sejam nefastas. Ou enfraquecendo o poder, ou levando à derrocada daqueles que pretenderam dominá-lo por completo. Tyrion, enfim, mostrou que Daenerys pode até ser a mãe dos dragões, ou seja, que o poder seja dela por direito, mas que isso não faz dela necessariamente uma pessoa que entenda toda a matéria e forma do poder soberano.

Paralelamente temos, enfim, a jornada de Jon Snow (Kit Harington). E sim, claro, ele é o herói. Isso não implica falar de finais felizes ou de ausência de sacrifícios. Ao contrário, a jornada do herói mítico é sempre cercada de perdas e sacrifícios e fatalmente ele é apenas um instrumento para a vitória, à custa de muita dor e derrota pessoal. Mas se lembrarmos do famoso livro de Joseph Campbell, “O herói de mil faces” que inspirou inclusive George Lucas na criação de Star Wars, não há dúvida alguma de que os elementos da jornada do herói estão todos ali presentes na história do nosso querido bastardo João das Neves: uma origem obscura, um exílio em busca de autoconhecimento, o encontro com um mestre que lhe provê algumas respostas e alguns artefatos mágicos que lhe auxiliarão em sua jornada, o encontro com o amor, sua consequente perda pelo conflito que se dá entre seu papel na narrativa e uma vida mundana, e, é claro, o mais importante: uma profecia.

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O elemento da profecia jamais foi devidamente aprofundado previamente na série de televisão como fora nos livros. Salvo engano o termo Azor Ahai, o herói mítico destinado a salvar Westeros dos Caminhantes Brancos, jamais sequer havia sido citado na série de televisão, diferentemente do que se dá nos livros. E isso é bom, na medida em que o recurso a uma profecia na série de TV, previamente, exporia muito mais a verdadeira natureza do jogo. Mas é certo que ele existe e está lá, e deve ser melhor abordado justamente a partir da posição narrativa de Bran, nos próximos episódios.

Mas não há muitas dúvidas de que se Jon Snow não for o próprio Azor Ahai, ele ao menos deve ser, ao lado de Daenerys e talvez Tyrion, uma das facetas deste. Aqueles que reunidos serão capazes ao menos de conferir uma chance mínima de luta aos homens contra a implacável marcha do inverno.

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A jornada do herói, enfim, fica manifesta nos últimos minutos desse episódio e os paralelos com as narrativas religiosas são também bastante evidentes. Há uma profunda relação entre poder e elementos míticos que foram apropriados pela religião ao longo de milênios. Por isso os produtores da série optaram por jogar abertamente com isso e apostar na evidente força simbólica da cena que mostra Melisandre lavando o corpo de Jon Snow. Se você achou que a semelhança com Jesus de Nazaré era mera coincidência, não é. Jesus, afinal, de uma perspectiva narrativa, é apenas mais um uso do modelo da jornada do herói que, não por acaso, outras tantas religiões da antiguidade reproduziram para enaltecer seus grandes personagens míticos.

Assim vemos a limpeza do sangue, a exposição das feridas no corpo morto e sua rigidez cadavérica evidente. Vemos a dúvida no olhar dos crentes, e crença no comportamento dos céticos. Testemunhamos súplicas aos deuses, que se quedam sem respostas, frustrando, aparentemente, as esperanças de todos. E em seguida vemos o milagre acontecer, longe da presença de qualquer olhar humano mundano, como é da natureza de qualquer grande mistério. Como qualquer grande herói mítico, Jon Snow enfim retorna dos mortos – não por acaso, Ghost, que representa seu espírito, é o primeiro a despertar – e abre seus olhos mais uma vez em um momento chocante quando seus pulmões subitamente se enchem de ar.

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Ele agora caminha em direção ao seu destino. Será um daqueles que conduzirá a história a seu fim. Não que isso signifique certeza de vitória e final feliz. Longe disso. Final feliz é coisa que Hollywood e Walt Disney inventaram no início do século XX quando se apropriaram das estruturas das narrativas clássicas. George Martin knows better. Ele sabe que qualquer narrativa épica é cheia de perdas, traições, morte, destruição, sangue e fogo. Quando o fim se inicia, é justamente quando o pior está por vir. Preparem-se então, telespectadores. Game of Thrones tende apenas a ficar mais intensa, e quando seu fim chegar, o final que teremos provavelmente não será nem de longe algo que se possa classificar como feliz.


Série: Game of Thrones
Temporada: 6ª
Episódio: 02
Título: Home
Roteiro: Dave Hill
Direção: Jeremy Podeswa
Elenco: Peter DinklageNikolaj Coster-WaldauLena HeadeyEmilia ClarkeKit HaringtonLiam CunninghamSophie TurnerAlfie AllenGwendoline ChristieMaisie WilliamsJonathan PryceCarice van HoutenIsaac Hempstead Wright e Max von Sydow.
Graus de KB: 2: Kit Harington atuou em Pompeia (2014) ao lado do eterno Jack Bauer, Kiefer Sutherland, que esteve em Linha Mortal (1990) com Kevin Bacon
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4 thoughts on “Crítica | Game of Thrones – 6×02: Home”

  1. É um verdadeiro tratado de tordesilhas de Westeros. Ficou excelente MB, parabéns.

    Você é um dos poucos que vai além do básico, além de apenas descrever o que aconteceu no episódio. Essa leitura de #GoT está espetaculosa.

  2. esse segundo episodio me deixou de boca aberta, foi tão bom que me empolguei de uma maneira que depois de 53min eu pensei que ainda estava no começo, e fiquei triste porque acabou, a cena de Tyrion e os dragão é uma das melhores cenas do episodio, fiquei nervoso e ficava dizendo pra ele sair daquele calaboço…eu fiquei feliz por Arya finalmente acabou o sofrimento dela pelo que eu vi ali ela consiguirá concluir o seu treinamento, realmente foi um salto bem grande, eu não espera que aquele final fosse acontecer nem tão cedo, esse episodio acaba com as duvidas de todos com relação a Jonh Snow

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