Crítica | Vício Inerente

É incrível a capacidade do diretor Paul Thomas Anderson em conceber uma filmografia tão distinta e acima da média. Apesar de fazer filmes bem diferentes, alguns elementos geralmente estão presentes em seus filmes. Um bom exemplo é o alto número de personagens. Em “Vício Inerente” ele se baseia no livro escrito por Thomas Pynchon para fazer uma espécie de filme noir colorido.

No filme, Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) é um detetive particular. O doc vem da abreviação de “doutor” em inglês, já que seu escritório fica próximo a consultórios médicos. Ele recebe a visita da ex-namorada, Shasta (Katherine Waterston), pedindo sua ajuda. Ela diz que está com um novo amante: Mickey Wolfmann (Eric Roberts), um rico empresário. Mas, Shasta e a mulher de Mickey planejam dar um golpe e roubar o dinheiro do ricaço. Larry se compromete a ajudar, porém no dia seguinte recebe a notícia que tanto Wolfmann quanto Shasta desapareceram. A investigação começa e o detetive vai atrás de pistas sobre o paradeiro dos desaparecidos.

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A primeira vista, parece uma simples história de investigação. Mas Doc não é um investigador comum. Ambientada na excêntrica década de 1970, a trama traz o contexto da época: sexo, drogas e rock´n roll. O personagem tem estilo hippie e certos clichês do período em que se passa o filme. Por isso, não espere dele um comportamento investigativo dentro dos padrões. Ou seja, iremos acompanhar uma viagem investigativa sob efeitos de drogas, com direito a algumas alucinações e momentos de paranoia.

O roteiro, escrito pelo próprio Anderson, não está muito preocupado com a investigação e sim com os personagens e atmosfera da história. Isso faz com que o espectador entre na mesma viagem de Doc. Aos poucos, ele vai descobrindo novas pistas envolvendo o desaparecimento do ricaço, conspirações e caminhos diferentes da investigação principal. Para não ficarmos perdidos, existe uma personagem/narradora que ajuda um pouco no entendimento da trama. Onipresente, a voz em off é quase uma entidade, e também faz as vezes de consciência do protagonista. Mesmo com tantos elementos, o roteiro consegue dar conta de tanta informação e faz uma ótima mistura de gêneros, passando pelo já citado filme noir, mas com traços de filmes policial, comédia e romance.

Já que a história não é o principal, mas sim os personagens, o trabalho do elenco acaba se destacando. Obviamente, quem chama mais a atenção é o protagonista, interpretado por Joaquin Phoenix. Ele é um ator extraordinário e o papel de Doc parece ter sido escrito especialmente para ele. É impressionante a forma como ele consegue retratar toda a viagem e estilo de investigação do personagem. Outro que merece destaque é Josh Brolin como o detetive Christian F. “Bigfoot” Bjornsen. Na trama ele é o oposto de Doc, representando o espírito conservador policial da época. O elenco ainda conta com diversos nomes, todos muito bons, mas vale a pena citar a participação de Martin Short que é hilária. E, por último, destacar Katherine Waterston, que interpreta Shasta, por ter um dos momentos mais bonitos e de entrega do filme.

INHERENT VICE

A parte técnica é sempre um bom destaque nos filmes de Anderson. Ele consegue recriar perfeitamente o clima dos anos 70, algo que ele já havia conseguido em “Boogie Nights”. A trilha sonora, de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, ajuda na imersão do telespectador. O músico tornou-se colaborador dos últimos filmes de PTA. O repertório escolhido também é uma ótima escolha para ambientação da época. Já a fotografia, de Robert Elswit, e a montagem de Leslie Jones contribuem com alguns longos planos para favorecer a atuação dos atores. Existem momentos em que a câmera segue o protagonista. Isso ajuda a dar a sensação de movimento de investigação quando o detetive chega a determinados locais, e também cria cenas hilárias. Como por exemplo, quando ele está chegando ao departamento de polícia. Um policial esbarra em Doc, propositadamente, derrubando-o no chão. Muitas vezes, tem-se a impressão de que o filme foi produzido de fato na época em que se passa.

O filme, no fim das contas, é uma história de amor hippie misturada com diversos outros gêneros, recriando bem o clima dos anos 70. Talvez a história se prolongue um pouco demais na sua parte final, após a resolução do conflito principal da trama. Porém, acaba valendo a pena. O roteiro consegue “fechar as pontas soltas” da investigação e traz um resultado satisfatório aos fatos. Paul Thomas Anderson mostra, mais uma vez, seu incrível talento como cineasta e contador de histórias.

* Texto revisado por Elaine Andrade


Uma frase: Shasta Fay Hepworth: “Não é o que você está pensando, Doc.” Doc Sportello: “Não se preocupe. Pensar vem depois. O que mais?”

Uma cena: Quando o personagem Sportello é surpreendido por um “jantar” que faz uma recriação de A Última Ceia.

Uma curiosidade: Joaquin Phoenix acabou ficando com o papel que seria de Robert Downey Jr. Ele já havia trabalhado com Paul Thomas Anderson em seu último filme, O Mestre. Segundo Downey o diretor achou que ele era “muito velho” para o papel.

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Vicio-Inerente-cartazVício Inerente (Inherent Vice)

Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Katherine Waterston, Joanna Newsom, Jeannie Berlin, Benicio Del Toro, Reese Witherspoon, Owen Wilson, Jena Malone, Eric Roberts, Serena Scott Thomas, Maya Rudolph, Michael Kenneth Williams, Hong Chau, Martin Short, Sasha Pieterse, Martin Donovan, Peter McRobbie e Keith Jardine
Gênero: Comédia, Crime, Drama, Mistério, Romance
Ano: 2014
Duração: 149 minutos

12 thoughts on “Crítica | Vício Inerente”

  1. eu não gostei desse filme, eu me senti perdido…Paul Tomas Anderson já fez filmes muito melhores: Magnólia, Sangue negro e O Mestre são meus favoritos.. longas muito superiores e muito mais impactantes….

    1. vício inerente é uma obra-prima, jovem.
      o filme certamente vai virar um clássico.
      assista de novo, não dá para entender toda a magnitude desse filme assistindo apenas uma vez.

      1. não cara! se um filme não me agrada da primeira vez pra mim vira esquecido, todos os outros trabalhos do diretor citados acima por mim, eu gostei logo de cara, esse vicio inerente eu queria parar de assistir na metade do filme de tão entediado que eu estava, só assistir até o final porque não gosto de começar uma coisa e não terminar, mais fico feliz que você tenha gostado, eu gosto de comidas exóticas mais meu paladar tem limites não é todo tipo de especiarias que me descem pela goela, espero por outros trabalhos do Paul que me agradem!

        1. É um equívoco tentar entender a história do filme assistindo apenas uma vez. Tem muita informação e o efeitos proposital de uma mente drogada, dificulta ainda mais. A primeira vez se assiste apenas desfrutando do “barato” do filme. Na segunda que aí sim você pode tentar compreender a trama. Esse filme aí pra mim (e pra uma galera de críticos) é uma obra-prima.

          1. A história não é o mais importante aqui, e sim os personagens. Acho que assistindo uma vez da pra se situar bem sim na história. Mas com certeza tem diversos elementos que assistindo uma outra vez já ajuda a identificar melhor. Os filmes de PTA sempre tem muitas camadas. Mas pra mim a obra-prima dele é “Magnólia.

          2. Tbm acho Magnólia sua obra-prima, mas esse filme tem muita influência de Robert Altman. Sangue Negro e O Mestre são seus trabalhos mais autorais.

          3. Todos os filmes dele tem influência de Altman.
            Esse e Sangue Negro são os únicos filmes que o roteiro é baseado em um livro.

          4. todos filmes deles têm influências dos principais diretores q ele gostava, mas a presença do Robert Altman nos seus primeiros filmes e vício inerente é significante. Já O Mestre e Sangue Negro são filmes com pouquíssimas influências do Altman. É muito mais PTA do que qualquer outra coisa.

  2. muito me surpreendeu o PTA fazer um filme tão ruim assim, entediante para caramba de fato, mas acho que daqui a alguns anos darei mais uma chance por ser tratar de PTA.

    1. Eu sou fã de PTA, acho todos os filmes muito bons. Acho que o mais fraco é o 1º chamado “Hard 8”. Mas eu só vi uma vez a long time ago. Agora eu gostei mais desse do que “O Mestre”.

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