Crítica | Ave, César! (Hail, Cesar!, 2016)

Os Irmãos Coen sempre foram conhecidos por um estilo de fazer cinema que passa longe das afetações da grande indústria. Nada mais justo então que quando homenageassem Hollywood, recorressem à sátira.

A sátira de “Ave, César!” passa longe do modelo com o qual o cinema e o grande público se acostumou nos últimos 30 anos. Não há escracho ali, humor físico, tampouco escatológico na forma que séries na linha de “todo mundo quase em pânico” utilizam para além do limite de qualquer desgaste. Ou melhor, há escracho e humor físico sim, todavia, apresentados com uma sutileza e elegância típica do cinema dos Coen, e que muito fazem jus ao objeto principal de sua divertida crítica: a glamourosa indústria do cinema de Hollywood na década de 50, e suas inúmeras peculiaridades e curiosas contradições.

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Scarlett Johansson, mais “femme fatale” do que nunca.

Um período que pode ser considerado a belle epoque do cinema, no qual a “força da grana erguia e destruía coisas belas”. E também erguia ilusões e incongruências. Nada mais peculiar, pois não, do que um grupo de indivíduos que trabalhavam no coração de um dos negócios mais representativos e promovedor do sistema capitalista se insurgir contra o mesmo recorrendo a embates teóricos e uma conveniente – a custo de certo prejuízo de sentido – adequação do pensamento marxista ao modus vivendi do maior símbolo do American Way of Life. Assim, basta que os Coen posicionem sua já conhecida lente escrutinadora da aventura humana no ângulo correto é deixar rolar a fita. Hollywood, em outras palavras, satiriza-se a si própria sem muito esforço. Metalinguisticamente, inclusive.

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Channing Tatum segue impressionando e se destaca com uma das melhores performances do filme.

Mas “Ave, César!” serve também como uma homenagem. Uma homenagem a um tempo – com seus contrastes convivendo lado a lado em technicolor – que definitivamente se perdeu e a tudo que havia de belo, lúdico, frugal e até mesmo, porque não dizer, levemente inocente em Hollywood. Uma grande homenagem dos Coen à seus colegas predecessores roteiristas que marcaram a história na luta contra o Macartismo. Os Coen, afinal, começaram como, e até hoje são roteiristas por excelência.

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George Clooney, e a crítica ao comunismo trôpego e inocente da Hollywood dos anos 50.

Talvez por isso ganhe tanto destaque um dos poucos problemas de Ave, César: a progressiva perda de coesão e de ritmo da linha narrativa principal ao longo da fita e a concomitante – e provavelmente relacionada – pouco desenvolvimento e empatia com aquele que se pretende por ser o personagem condutor da história, o improvável (e por isso mesmo tão interessante) gerente de estúdio com princípios e bom coração. Da mesma forma fica prejudicada a força de atração que a narrativa condutora exerce sobre as outras tantas histórias e personagens que gravitam entorno daquela.

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Josh Brolin, e o improvável – e pouco desenvolvido – chefe de estúdio de bom coração.

Ainda assim são histórias deliciosamente engraçadas, interpretadas pelos melhores atores do mainstream da indústria de Hollywood, exploradas com talento para a câmera que poucos como Joel e Ethan Coen detém. Só por isso o filme já vale muito seu ingresso.


Uma frase: Precisamos tomar os meios de produção daqueles que mais se beneficiam!

Uma cenaEddie Mannix restaura o bom senso capitalista de Baird Whitlock na base do tapa.

Uma curiosidade: O estúdio fictício “Capitol Pictures” já havia parecido em uma outra obra dos Irmãos Coen, Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991), também um filme de época que aborda a indústria do cinema.

 


Ave, César! (Hail, Cesar!)

Direção e Roteiro: Joel & Ethan Coen
Elenco: Josh BrolinGeorge ClooneyAlden EhrenreichScarlett JohanssonTilda SwintonRalph FiennesFrances McDormand e Channing Tatum.
Gênero: Comédia
Ano: 2016
Duração: 106 min.
Graus de KB: 1!– Josh Brolin e Kevin Bacon atuaram juntos em O Homem Sem Sombra (2000)!

 

 



5 thoughts on “Crítica | Ave, César! (Hail, Cesar!, 2016)”

  1. Eu acho q esse filme merece pelo menos mais um Baconzinho… Mas nem vou comentar isso. Na hora que aparece o Marcuse eu quase me escangalhei de rir!

      1. A minha nota também seria 4 bacons. Eu achei o filme muito bom. Acho que talvez a parte “crítica” do filme pudesse ter ido um pouco mais além, mas combina com o contexto geral do filme.

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