Crítica | A Bruxa (The Witch, 2015)

Os filmes de terror enfrentam uma particularidade que os distanciam dos outros gêneros: o medo individual. A identificação com seu temor interior em conjunto com a qualidade de uma obra, torna um filme mais ou menos arrebatador. Existe aquele considerado o terror universal que é O Exorcista e todos os outros e com isso uma comparação injusta e sem sentido dentro do gênero. Isso pode frustrar a experiência de muitas pessoas acreditando que vão ao cinema ver algo tão bom quanto. Por isso mesmo, quero iniciar esse texto encerrando estas comparações com o extraordinário O Exorcista e deixando as próximas linhas exclusivas para, A Bruxa, o melhor filme de terror dos últimos dez anos.

Nesta fábula sombria que se passa na Nova Inglaterra do século XVII, somos apresentados a família composta por William e Katherine que durante um julgamento são expulsos, juntamente com seus filhos, da colônia onde vivem por não aceitarem as regras de convivência local. Sem terem pra onde ir, se estabelecem em um casebre próximo a uma opressora floresta onde é quase palpável o perigo que ela representa. O clima pesado, opressor e com uma paleta de cores acinzentadas, o diretor Robert Eggers não permite que em nenhum momento possamos sentir alívio ou felicidade ao ver aquela família. É como se uma carga de energia negativa estivesse presente no local e nas pessoas, incluindo as crianças.

O momento que define o tom da trama é quando a filha mais velha, Thomasin, está brincando com o caçula bem próximo a floresta e em fração de segundos o bebê desaparece. A perda da criança ocasiona uma ciranda emocional em toda a família que tenta seguir em frente, mas a cada hora surge um problema como a falta de comida, a plantação apodrecida e dificuldades de relacionamento. O pai, visto como o homem virtuoso e mantenedor da família, é de uma fé cega e inabalável. Uma cena que demonstra isso é o momento da ceia onde vislumbramos o simbolismo que remete William a Jesus. A medida que os problemas aumentam, a histeria toma conta de todos e Thomasin vira a causa provável dos problemas da família, sendo acusada inclusive de bruxaria. O pecado da garota é ver de forma clara e madura a derrocada daquelas pessoas, até mesmo a incoerente relação entre os gêmeos e um famigerado bode preto ovacionado nas brincadeiras e cantigas macabras.

foto da ceia - A Bruxa

O caminho de Thomasin

Desde a primeira cena em um pequeno tribunal na colônia podemos perceber o papel central de Thomasin na trama. Sua natureza reflexiva e contestadora são sempre abafadas pela sua criação ortodoxa. Devota mas questionadora, ela é o simbolo da opressão sofrida pelas mulheres, despertando o desejo no irmão, fazendo de tudo pela família e ainda assim sendo o foco natural da desconfiança quando as coisas começam a dar errado. Ela não teme o que não conhece, não tem medo da floresta e provavelmente a veríamos queimada em alguma fogueira como bruxa apenas por não se encaixar naquilo que se espera de uma adolescente. Embora seu desfecho possa gerar alguma controvérsia, foi coerente com tudo que vimos durante o filme. Sua afronta ao medo e até o deboche como quando amedronta a irmã Mercy aolavar a roupa do pai mostra como ela é dissociada do fanatismo familiar, inclusive na maturidade com que enfrenta o pai revelando toda a hipocrisia dele.

A Bruxa vai ganhar sua atenção de forma sorrateira, em um filme lento mas que desde os primeiros dez minutos vai prender seu atenção com um perigo que você não sabe de onde vem. Este medo chega através de um animal na mata, em locais onde é possível correr como na floresta ou em espaços apertados a exemplo da casa. Nada nem ninguém é inofensivo. É com este clima que convido todos a assistir esse filme mas sem as expectativas de nascimento de um novo clássico, assista esperando o simples: terror em estado bruto.


Uma frase: Você gostaria de experimentar as maravilhas do mundo? 

Uma cena: A cena que culmina com as crianças presas no celeiro é assustadora. 

Uma curiosidade: O mestre Stephen King anunciou em entrevista que ficou apavorado assistindo A Bruxa do estreante Robert Eggers.

 

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the-witch-poster-2A Bruxa (The Witch)

Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy , Ralph Ineson , Kate DickieHarvey ScrimshawEllie Grainger.
Gênero: Terror
Ano: 2015
Duração: 92 min

 

Uma criatura meio doida que lembra a irmã do Ferris Bueller, finge que é nerd, adora filmes de terror mas tem medo de comédias românticas.

8 thoughts on “Crítica | A Bruxa (The Witch, 2015)”

  1. ótima reflexão sobre o gênero no primeiro parágrafo. parece que estamos diante de uma ótima experiência de terror. pretendo assistir em breve, agora com as expectativas um pouco mais altas. o melhor é sempre ir com elas controladas!

  2. O filme é realmente muito bom, só achei que no final ele foi um pouco “literal” demais já que ele foi o tempo todo num clima mais “sugestivo”. Ainda assim achei muito bom. A única culpa de Thomasin é de ser mulher. Eu classifiquei o filme como um drama familiar misturado com terror religioso. E a única forma de se livrar dos dogmas da igreja e conseguir viver uma vida “normal” é abraçar o lado “bruxa”.

    1. É Ramon, tem razão, o final ‘foge’ um pouco do clima construído ao longo do filme, ainda assim é muito bom mesmo.

      1. Sabem, eu tenho que discordar. Não o achei sugestivo pois logo no começo já vemos uma mulher levitar. Se fosse somente o ritual de matar um criança e tivesse ficado por isso mesmo, também teria achado o final literal demais. Não acho, também, que ele “foge”, pelo contrário, é justamente esse o final que eu vi logo no começo. Se a filha não abraçasse o título que lhe foi dado de Bruxa pela própria família, então ela teria pagado o preço sem o ser – pela comunidade que os baniu. Ela estava realmente numa situação muito complicada, especialmente com os golpes de faca disferidos na mãe. Então eu vejo esse final “literal” como a escolha perfeita. Ainda mais por se tratar de fábulas sobre a temática bruxa, já que estamos num monde onde ‘existem bruxas’, então só lhe resta virar, de fato, uma. Prefiro isso do que ela tentar sobreviver sozinha numa terra infértil ou voltar e ser julgada sem ter feito nada (de novo, porque do ponto inicial até o final foi tudo o que fizeram, a julgaram sem ela ter feito nada). Ainda estou digerindo e revisando todos os pontos de interrogação na minha cabeça, mas o final, pra mim, foi realmente maravilhoso, sem tirar e nem por.

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