Mr. Robot é o maior plot twist da década?!

Os fãs de Game of Thrones não aceitaram, os fãs de Narcos não entenderam, como uma série sobre hackers foi capaz de levar o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática? É justamente nesse ponto que a maioria se engana. Mr Robot é uma série para todos, e seus 2 últimos episódios tem um dos maiores plot twists da história do cinema/tv. Se você explodiu sua mente com Os Suspeitos, Sexto Sentido, O Nevoeiro, Seven Os 7 Crimes Capitais ou O Homem Duplicado, essa série é para você.

Uma quarta parede com um toque ”diferente”

A quarta parede anda fazendo muito sucesso no cinema, filmes como Noivo Neurótico e Noiva Neurótica (Woody Allen) e O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese) são simplesmente amados e diferenciados, o fato do personagem falar diretamente com você te deixa de certa forma com a sensação de estar inserido na história. No mundo das séries podemos ver essa ferramenta ser explorada em House Of Cards, onde o nosso presidente favorito fala diretamente conosco sobre suas falcatruas, jogos manipulativos e mentiras, essa ferramenta faz com que House of Cards seja uma das melhores séries da atualidade.

Em Mr Robot essa ferramenta é usada de maneira diferente, ele não fala diretamente com você, mas os pensamentos dele falam com você, lembra-se de Dexter? Então, quase a mesma coisa. Seus pensamentos, anseios, medos, paranoias, ansiedades, dúvidas, questionamentos, tristezas e relutâncias entre si mesmo são o tempo todo passados para quem está assistindo, e de certa forma você se identifica, concorda, se questiona, se comove, se atrai, assim como com em Dexter, mas a diferença que faz essa série ser tão GENIAL é que VOCÊ faz parte do pensamento do protagonista.

Ele te coloca dentro da mente dele, ele te conta seus medos, ansiedades e as decisões que deve tomar, te pede conselhos, te coloca não apenas dentro da história, do fato ou da trama, ele te cria, ele te faz ”real” dentro de seus pensamentos. Tanto que logo no primeiro episódio ele se dirige a nós, espectadores, falando “Hello, friend”, o que nos desperta uma curiosidade da nossa própria relação com ele.

O Protagonista

Elliot (Rami Malik) é um técnico que trabalha em uma empresa de computação, mas nas horas vagas é um hacker que hackeia tudo e todos. Ele é extremamente anti-social, desconfiado, evita sempre contato físico e até visual, ele vive ”internamente”, momentos os quais ele pensa diversas coisas em algum par de segundos e na hora de responder, ele dá uma resposta curta e grossa, bem limitada e que pode se passar como antipatia.

Mr Robot

Por exemplo, digamos que uma pessoa venha falar com ele, antes que a pessoa se apresente, ele já sabe tudo da vida dela, qual fruta favorita dela, se ela tem amante, que tipo de categoria do pornô ela gosta, ele analisa as possíveis intenções da pessoa e quase sempre é indiferente ou responde até com um certo desdém. Ele tem uma dificuldade enorme de se relacionar e, principalmente, de confiar em qualquer um, ele sempre é desconfiado, antes de conversar ou se ”relacionar” com qualquer pessoa, ele a hackeia antes, como se quisesse saber que tipo de pessoa ela é e se ela é confiável. Mas acontece que quanto mais ele descobre aquilo que as pessoas escondem ou quem elas realmente são e suas verdades, mais ele se afasta e menos ele dá oportunidades para terem sua confiança, sentindo-se mais deslocado ainda na sociedade.

Ele tem vários transtornos mentais e é justamente o fato de ser problemático que o torna tão emblemático. Suas paranoias são bem intensas e os deixam apreensivo, tenso, suado, com pupilas dilatas, seus pensamentos são sempre muiot intensos e sua mente inventa várias mentiras as quais ele acredita, sem questionar. Ele é viciado em heroína, mas não a usa apenas como escape da realidade, usa justamente pra encarar a realidade, ele vive com pressão, tem uma relação com a sua fornecedora, estresse da empresa, sua irmã e principalmente a sua ”missão”, toda essa pressão o deixa extremamente ansioso, estressado, paranóico, travado, e sem conseguir ter qualquer tipo de interação pessoal.

Elliot é o anti-social mais extremista que você pode encontrar, vive em seu próprio mundo e sua mente tem várias camadas e lugares onde passeia, corre, caminha e rasteja, sua mente é ponto principal, é a mesa desse ”banquete”.

Missão

Ao lermos a proposta que a série traz, pensamos que é voltada para um nicho de público, onde encontramos admiradores do mundo da programação virtual e hackers, que são levados a um êxtase assistindo filmes como Blackhat ou jogando uma partida de Watch Dogs, mas a série Mr. Robot nos apresenta a esse mundo tecnológico e de quebra de privacidade com um realismo sem amplificar ou exagerar na dose como alguns filmes que mostram hackers cheios de gadgets e feitos inexplicáveis e até ilógicos.

MR. ROBOT -- "hellofriend.mov" Episode 101 -- Pictured: (l-r) Christian Slater as Mr. Robot, Rami Malek as Elliot -- (Photo by: Peter Kramer/USA Network)
MR. ROBOT  (Foto por: Peter Kramer/USA Network)

O conhecimento de Elliot é exposto de uma forma ponderada e nada extravagante, fazendo o espectador ter a possibilidade de acompanhar cada passo da missão e não ficar perdido no meio das suas ações, mesmo em cenas com linguagem mais técnica. O que nos desperta uma curiosidade é como irá ser realizada a missão compartilhada do misterioso Mr. Robot e adotada pelo Elliot com o objetivo de destruir uma empresa multinacional que fabrica computadores, celulares e tablets, além de terem um setor de crédito ao consumidor, a E-Corp, chamada carinhosamente de Evil Corp por Elliot e a FSociety, que curiosamente tem a logomarca bem similar à marca Dell. Será uma alfinetada na indústria?

Há um conflito de decisão para Elliot nesta parte, pois ele trabalha na firma que assegura os dados virtuais da E-Corp, então mesmo concordando com a ideia de destruir a empresa apagando os dados de consumidores e clientes de crédito, ou seja, apagando todas as dívidas financeiras feitas e, assim, causando um colapso capitalista, ele se encontra numa posição onde tem a opção de “trair” a sua firma, levando em conta que ele detesta o lugar.

Desenvolvimento da trama

O desenrolar da trama faz com que os espectadores se intriguem a cada reviravolta da história, toques sutis, como o fato de sempre estar presente um degradê de cores acinzentadas e neutras na estética dos personagens, o que dificulta a tarefa do espectador de criar um conceito sobre os cada um deles e seus o papéis e posições na história, assim como as intenções de cada um no meio da trama. Isto faz com que nada seja óbvio. As porções dosadas e ponderadas de informações sobre os personagens e a Fsociety despertam uma fascinação pelos elementos e isso é uma bela e eficaz ferramenta para que o público seja cativado.

A construção dos personagens é a maior parte do tempo lenta, o público demora para criar uma visão e opinião dos personagens, entretanto frequentemente a concepção do espectador de certos personagens muda, pois a cada capítulo somos apresentados a uma nova característica, temperamento e comportamento que contradiz ou põem em debate o que foi apresentado no episódio anterior, como Tyrell que, nos primeiros minutos de sua aparição, chegamos a uma conclusão escassa de detalhes sobre a personalidade dele, porém mais adiante somos apresentados a uma falseta ambiciosa, sombria e impiedosa de Tyrell, o que não poderíamos prever nas primeiras aparições do personagem.

Mr Robot - Shayla

Infelizmente, esse desenvolvimento lento da trama não só da história, mas também dos personagens isoladamente pode fazer com que seja uma frustração para alguns espectadores e para outros uma persuasão a continuar explorando essa série para que chegue a um ponto onde possa realmente saber mais dos personagens. Os momentos de mais descontração, como a cena entre Darlene e Trenton, membros da FSociety, saindo para se encontrarem com um outro grupo de hackers dentro de uma limousine, mesmo sendo um momento propício para ter um desenrolamento de algumas características e vivências dos dois personagens, é contido.  São cenas que poderiam deixar os personagens mais próximos do espectador, mas não são e a série perde várias oportunidades de os desenvolverem. Agora se todas essas chances perdidas são propositais aí é que fica o mistério.

Qual o diferencial de Mr. Robot?

Quando pensamos em Plot Twist, logo nos vem em mente “Darth Vader é Pai do Luke” ou “Bruce Willis está morto o tempo todo em o Sexto sentido“, mas a magia do Plot é que em muitos nos dão “dicas”, mas quase nunca percebemos ou notamos os detalhes implícitos no filme, em Clube da Luta podemos ver esses detalhes que não notamos, como o Jack entrar no ônibus e pagar apenas uma passagem, ou entrar no banco do passageiro e depois do carro capotar ele sair pelo lado do motorista, no filme O Homem Duplicado (Dennis Villeneuve) temos também dicas e pequenos detalhes que nos mostram que os dois são a mesma pessoa, a experiência do Plot Twist é sempre maior quando não existem essas dicas e esses detalhes.

O filme Os Suspeitos, estrelado pelo Kevin Spacey possui, na minha opinião, o maior Plot Twist da história do cinema, e nesse filme não existem dicas ou detalhes implícitos, por isso a experiência do é muito impactante. Em Mr. Robot temos um Plot Twist como em Os Suspeitos, pois não tem dicas, detalhes implícitos e muito menos explícitos. No filme Cisne Negro podemos notar elementos sugestivos, como as cenas de espelho, e no metrô que podem nos levar a pensar que a protagonista sofre de esquizofrenia e que a sósia que ela vê não passa de uma alucinação.

Mr Robot
O Hacker

Em Mr. Robot esses elementos que podem de alguma forma nos levar a conjecturar a respeito do que poderá ser o Plot Twist da trama não existe. e justamente por não dar ao espectador nenhuma pista ou informação sobre a possível reviravolta é que faz Mr Robot ter um dos maiores Plot Twist da história do cinema e do mundo das séries.

Conclusão

Mr. Robot não é simplesmente uma série do “momento” ou um “sucesso repentino“, é uma série inteligente, audaciosa e extremamente paciente no seu desenvolvimento. Seu roteiro é excelente, traz uma história bem amarrada e sem pontas soltas, e se encontrarmos uma “ponta solta” ela não está ali por acaso, todos os pedaços fazem parte de um enorme quebra cabeça, uma série cuja a história é envolvente e intrigante. Não é apenas uma série de hackers, uma série que trata de problemas sociais, de crises financeiras e que explora a psique humana de seu protagonista.

Entendo Fight Club de trás pra frente, mas não entendo Donnie Darko de jeito nenhum e o pião de Inception não me confunde.

5 thoughts on “Mr. Robot é o maior plot twist da década?!

  1. Acho que a série tem um esmero muito interessante na parte “hacker”. Ele usa programas hackers mesmo, os códigos em tela são linguagens de programação e/ou linhas de comando de terminal de verdade e tem uma trama envolvente.

    Eu não pirei como muitos piraram com a tal “virada na trama” ou o “plot twist”, talvez por já ter visto muito disso em outras produções que foram citadas no texto.

    Para mim um dos melhores episódios é o de número 6 depois do momento “prison break” que rola nele.

    De qualquer forma Mr, Robot, mesmo não entrando no rol das minhas favoritas, é mesmo uma das séries mais interessantes lançadas recentemente e vale muito a pena.

  2. A Netflix me deixou extremamente preguiçoso, acabo não assistindo nada que exija mais que apertar o play já deitado no sofá. Mas o texto realmente me deixou curioso, acho que vou correr atrás dessa série.

  3. Série ótima! Tem elementos fortes, não só o plot twist de Clube da Luta, tendo também um Elliot com um quê de Lisbeth Salander.

  4. Será que a segunda temporada vai explicar a respeito do Plot que nos deixou com os pedaços do cérebro no chão? Estou curiosa com o japonês crossdresser.

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