Crítica | Deadpool (Deadpool, 2016)

Deadpool incorre no pecado mortal de recorrer a uma história de origem, justamente com um personagem que não dá a mínima para esse tipo de expediente.

Os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick, (responsáveis pelo engraçadíssimo Zumbilândia), tinham em mãos o material ideal para realizar o que provavelmente seria o filme mais hilário de super-heróis de todos os tempos: um personagem totalmente voltado para isso com legiões de fãs que o conhecem muito bem, e um dos castings talvez mais perfeitos da história do cinema (Ryan Reynolds, afinal, parece ter nascido para interpretar o mercenário insano e sem noção).

Deadpool é, afinal, um personagem que dispensa apresentações. Não tanto pelo fato de ser bastante conhecido, mas justamente por ser exatamente um tipo de personagem que funciona muito bem – e talvez até melhor, como seria o caso – sem ser apresentado.

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Deadpool é tão conhecido que a distribuidora nacional nem se preocupou em arranjar um infame subtítulo em português.

Infelizmente os roteiristas e o diretor Tim Miller (que apesar e talentoso ainda tem muita experiência a adquirir no ofício) optam pela escolha menos interessante com relação ao Mercenário Desbocado mais amado da cultura pop: uma história de origem; e de quebra uma que tem como motivador principal um romance que, por mais que seja apresentada através de uma série de piadinhas ácidas, não deixa de soar piegas.

Não que a química entre o casal da fita, Ryan Reynolds como Deadpool e Morena Baccarin como sua namorada Vanessa, não funcione. Pelo contrário, ela funciona muito bem. Mas a exposição que o relacionamento tem em tela é – ou ao menos deveria ser – absolutamente desnecessário para a história que se deveria pretender contar. Ou melhor dizendo, pela piada que se deveria querer contar.

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Reynolds e Baccarin: boa química, mas com uma história de amor deslocada.

O principal apelo de Deadpool é sua completa sandice ao ponto de lhe conferir a consciência de ser um personagem de quadrinhos e a todo momento romper a famosa quarta barreira e conversar diretamente com o leitor. No cinema esse recurso não é novo, e Reynolds e os realizadores da película o exploram bem. Considere ainda que a Fox detém os direitos do personagem e, como tal, opta por inseri-lo abertamente – rendendo ótimas piadas com relação a isso, inclusive – no universo cinematográfico dos X-Men, e a malfadada e mal contada história de origem, fica ainda mais descartável.

Afinal, ora bolas, se vamos usar mutantes e até mesmo os X-Men na história, bastava gastar cinco minutos de tela informando que Deadpool é um mutante com fator de cura e uma grande dose de insanidade. Em seguida, colocava-se o mercenário em uma missão daquelas que nenhum X-Men teria coragem de encarar (por alguma questão moral ou qualquer coisa que o valha) e deixava-se as piadas e sequências de ação e a zoeira se desenvolver à vontade.

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Se é para usar os X-Men – e as excelentes piadas relacionadas a isso – bastava dizer que Wade Wilson é um mutante com sérios problemas psiquiátricos, e estava tudo resolvido.

O filme do mercenário falastrão, enfim, não se favorece de uma história de origem que serve apenas para quebrar o ritmo da fita e tomar espaço de boas sequências de ação e de comédia. Ainda assim é uma boa adaptação de um ótimo personagem. Pena que não foi melhor realizada. Nesse ponto, a propósito, filmes como Kingsman: Serviço Secreto (2014) e Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010) (ambos, não por acaso, do diretor Matthew Vaughn) são muito mais bem resolvidos.

Sem dúvida Deadpool poderia ser um marco, afirmando o gênero dos filmes de super-heróis como tal e contribuindo – juntamente com filmes como Guardiões da Galáxia –  para a criação de um sub-gênero que tem no bom humor e na sátira de si mesmo o grande diferencial. Nos resta torcer que venha uma continuação, e que essa, ao menos nessa ponto, livre da “obrigação” de se contar uma origem, seja tão insana, surreal e hilária quanto Deadpool merece.


Uma frase: Que Professor?  Stewart ou McAvoy? Essas linhas do tempo me confundem!

Uma cena: Wade responde a Francis, de forma bastante gráfica, qual o nome dele…

Uma curiosidade: A personagem Negasonic Teenage Warhead interpretada por Brianna Hildebrand compõe o catálogo de mutantes da Marvel à disposição da Fox, e foi criada durante a excelente fase de Grant Morrison a frente dos X-Men; mas, a personagem que é apresentada aqui não detém qualquer semelhança com a personagem dos quadrinhos – acerca da qual, a propósito, sabe-se muito pouco -; os realizadores apenas escolheram a personagem pelo nome descolado e desenvolveram ela conforme acharam mais interessante, o que no final das contas ficou muito mais divertido.


Deadpool (Deadpool, 2016)

Direção: Tim Miller
Roteiro: Paul Wernick e Rhett Reese.
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed SkreinT.J. Miller e Gina Carano.
Gênero: Super-heróis, Ação, Aventura
Ano: 2016
Duração: 108 minutos.
Graus de KB: 1! – Ryan Reynolds trabalhou em R.I.P.D. – Agentes do Além (2013) – embora eu não recomende o filme – com Kevin Bacon.

 



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

19 thoughts on “Crítica | Deadpool (Deadpool, 2016)”

  1. Que conhecido o quê, só ouvi falar de Deadpool agora que veio o filme. No máximo conhecia a imagem do heroi mas nem sabia o nome.

      1. Hahaha. Mas o público em geral também não conhece. Fiz uma pesquisa rápida aqui pelo Instituto Jotazistico de geografia e estatística.

          1. Pronto, dentro do universo nerd é bem conhecido.
            Mas eu mesmo nunca li uma HQ dele.
            Ou seja, não é conhecido do grande público que quem no final das contas vai no cinema assistir o filme na maioria.

          2. Vi no filme de Wolverine e caguei pra ele. Depois que anunciaram o filme, fui pesquisar. Vi até uma animação dele contra Hulk e, mesmo com alguns bons momentos, achei chato. O filme agora me apresentou a um grande personagem.

  2. Porra man, só pelo fato de fazer diversas piadas politicamente incorretas, não se levar a sério na maior parte do tempo, sacanear os clichês (e também usar), sem falso moralismo, o filme já se diferencia dos outros sobre heróis. Achei válido ser um filme de origem e ser de verdade uma história de amor. A piada funcionou muito bem.

      1. Dá pra enquadrar Deadpool numa categoria especifica e nela ele não perde pra nenhum outro que é a do humor de referência.

  3. Acho que embaixo do texto deveria ter “os devaneios de Mário Bastos não representam a opinião da Pocilga e devem ser zoados na caixa de comentários abaixo”.

  4. Querido Mário Bastos, te considero pacas mas tá difícil te defender aqui hahahaha.

    Seu argumento desta resenha está baseado em um universo diferente. Não, Deadpool não é tão conhecido e sim, ele precisava de uma história de origem para ser apresentado ao novo público. Histórias de origem são insuportáveis, mas a forma como utilizaram ela aqui foi muito bem condizente com o personagem.

    Primeiro vemos ele já aloprando e a forma assíncrona como a trama é apresentada contribui para não deixar nada chato.

    Junte a isto o fato das milhares de referências a cultura pop e nerd que existem praticamente em todos os diálogos e cenas. Para quem é nerd, é um deleite. Quem não é, ainda assim estará acompanhando uma história engraçada, divertida e muito fora do comum.

    Para completar a melhor cena pós-créditos já feita. Eu gritei assim que ela iniciou. Não sei, eu cheguei do cinema a pouco e ainda estou eufórico.

    1. Márcio, você resumiu bastante o meu trabalho. Não sou leitor de quadrinhos e só ouvi falar de Deadpool quando anunciaram o filme. Em nenhum momento a história de origem me incomodou e a achei bem orgânica no roteiro. Além do mais, o enredo proposto pelo autor da crítica desconsidera a necessidade de apresentar uma motivação do personagem e,também, algum nível de profundidade. O Deadpool de Mário seria unidimensional e apostaria na insanidade, humor e conversas diretas pra criar alguma empatia com o espectador, que fatalmente não se importaria com o destino dele.

      1. Corrigindo, soube dele no filme de Wolverine, e que cá entre nós, nem deveria ter recebido o nome Deadpool de tão nada a ver.

  5. achei bom apenas, achei o filme muito corrido…eu odeio história de origem, mais a história que foi mostrada aqui é muito bem contada, as pidas sobre os X-men eu achei fantásticas me acabei de rir, as sequencias de ação são boas também e Ryan Reynonds pra mim mandou muito bem, pra mim o melhor filme de sua carreira, esse filme é diversão pura, vale pelo entretenimento…

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