Review | Black Sails – 1ª temporada

Uma das coisas que aprendi na minha experiência com Breaking Bad foi nunca desistir de uma série antes dos cinco primeiros episódios. Não me lembro bem porque só comecei a assistir a saga de Walter ‘Heisenberg’ White quando já tinham encerrado as cinco temporadas e não se falava em outra coisa: melhor série, Ozymandias[¹] como o melhor episódio de todos os tempos e muitos elogios além desses. Tentei descobrir se ela era boa mesmo e demorei aproximadamente um ano – 01 ANO – para conseguir vencer toda a primeira temporada! Achei chata, sem nada que justificasse o hype, como ela seria tudo isso que falavam? Por muita insistência dos amigos segui em frente e posso dizer que foi uma série maravilhosa. A ultima temporada é uma das melhores coisas já produzidas pois poucas séries conseguem a façanha de fazer com que todos os episódios sejam ovacionados pelo público. Mas porque estou fazendo esta introdução correlacionando Breaking Bad com Black Sails? Porque tive uma experiência muito parecida, quase abandonei a série e achei os primeiros episódios bem desinteressantes.

Black Sails é uma série produzida pelo canal americano Starz e funciona como um prelúdio do clássico A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson  escrito em 1883.  A história se passa na Ilha da Providência, região das Bahamas, um porto seguro com seu próprio forte e que recebe os maiores piratas, contrabandistas e mercenários da região, oferecendo escoamento para os materiais além de um outro negócio lucrativo: a prostituição. A série tem quatro núcleos que se interligam no principal propósito de Providência: O Comércio.

Black Sails

Um desses núcleos pertence ao O Capitão Flint, um personagem que está presente no livro A Ilha do Tesouro e aqui aparece como um homem misterioso flutuando entre o heroísmo e a vilania. Ele se torna obcecado pelo navio Urca de Lima[2] que, segundo informações, estaria transportando o ouro da coroa. Flint é um homem disposto a tudo para tomar este tesouro, colocando sua tripulação em situações extremas e precisando lidar o tempo inteiro com um possível motim.

Charles Vane [³] é outro Capitão e tem uma tripulação mais selvagem que a de Flint. Ele é um homem prático e não tem jeito com traquejos sociais, colocando-se em uma situação de vergonha e humilhação ao não colocar limites em seus homens e permitir que uma prostituta seja massacrada por eles como punição por um roubo. Está é uma outra questão presente a todo momento em Black Sails: o código de conduta entre os piratas! Eles estão dispostos a matar e torturar qualquer um por roubo incluindo o próprio capitão o que soa incompreensível se levarmos em conta que eles também roubam visto que são piratas!

A Capital Nassau é onde se concentra o comércio e assim sendo, a pessoa que comanda a compra e venda de materiais proveniente dos navios de velas negras é Eleanor Guthrie. Uma mulher forte mas de aparência frágil, que precisa a todo momento se afirmar diante dos homens que não a enxergam como uma autoridade pelo fato de ser uma mulher. Em meados de 1715, estar em uma posição de liderança e sendo a detentora de todo o dinheiro da região a faz criar inimigos, principalmente pela sua preocupação com a integridade física de outras mulheres, nesse caso a prostituta Max.

Por falar nela, Max é uma personagem bastante interessante. Inteligente, ela descobre uma forma de lucrar com a secreta rota do Urca e paga um preço alto por isso. E através dela que conhecemos a brutalidade e o machismo dos fora da lei, da sexualidade livre que existia entre os habitantes sem amarras de gênero e também das cenas de extensa violência. Em determinado momento somos apresentados a um tipo de “lavagem” a qual ela é submetida para não engravidar dos clientes. Posso dizer que foi bem bizarro.

Com isto desenhado podemos dizer que Black Sails é bem diferente da visão dos piratas que temos por aí, principalmente do mais famoso entre eles: Piratas do Caribe. Não é possível visualizar um Jack Sparrow circulando entre aqueles homens violentos e com um código de conduta apertado como o nó de uma forca. Os cenários são bastante reais e foram montados na Cidade do Cabo, os figurinos são cheio de detalhes e as tomadas dentro dos navios e as estratégias de guerra no mar são mostradas com ótimos argumentos. Apesar do início devagar, a série deslancha e faz valer a pena todo o esforço para vencer os primeiros episódios!

[1] Ozymandias é um soneto de  Percy Bysshe Shelley publicado em 1818 e também o apelido do faraó Ramsés II. Este foi o nome escolhido para o episódio mais apoteótico de Breaking Bad e também considerado o melhor de todos os tempos com nota 10 no IMDB. E clicando AQUI você pode encontrar todos os Easter Eggs do episódio.

[2] O Urca de Lima foi um navio que já existiu. Em 1715 ele partiu junto com uma escolta de sete navios para transportar o tesouro das americas! Mas nem toda essa escolta foi suficiente para lidar com um perigo ainda maior que os piratas; um furacão atingiu a frota e naufragou  seis navios, livrando apenas o Urca de Lima que ficou preso em um banco de areia perto da Flórida.

[3] Charles Vane foi um pirata que existiu e era bastante temido. Ele morreu enforcado na Jamaica após ser capturado e julgado por crimes de pirataria. Outra personagem que também existiu na vida real é sua parceira, a pirata Anne Bonny que também era considerada muito perigosa e depois de capturada morreu gravida na prisão.

 

 

Uma criatura meio doida que lembra a irmã do Ferris Bueller, finge que é nerd, adora filmes de terror mas tem medo de comédias românticas.

3 thoughts on “Review | Black Sails – 1ª temporada

  1. Pois então. Encontrei diversas qualidades em Black Sails, mas a trama principal que não tinha me cativado tanto. O último episódio foi o melhor, mas não ao ponto de me manter estimulado a continuar acompanhando. Após vários elogios de porcolegas e também de outros críticos, decidi iniciar a segunda temporada.

    Daria 3 bacons pra primeira temporada!

    1. Vou falar sem medo de errar: Black Sails tem um dos melhores roteiros e desenvolvimentos de personagens da TV. Fique atento. A forma com que cada personagem é desenvolvido ao longo da temporada é simplesmente preciosa. Raro mesmo, na TV ou no cinema. A história é trabalhada sem pressa, detidamente, num crescendo, até chegar a um clímax que, depois descobrimos, segue sendo (apenas?) uma preparação para algo ainda mais poderoso. Não se deve observar uma série como como essa com o olhar de quem espera uma mera história de aventura. Ela não é sobre isso. Ela é sobre homens e mulheres que, à beira do desespero, pressionados ao limite pelo poder de um Império inclemente encontram uns nos outros forças para ainda serem homens e “cidadãos” de alguma forma de sociedade, que se organiza por seus próprios códigos e leis. Ordem brotando do caos de maneira fascinante. A colônia de New Providence atrai a atenção de historiadores e do imaginário popular até os dias atuais graças à força que aquela experiencia possuiu. E não é apenas essa fidelidade à história que a diferencia. São excelentes roteiros, diálogos fantásticos, ótima direção e produção com efeitos especiais que muitas vezes ultrapassam a execução preguiçosa de Piratas do Caribe. Para mim, é a representação definitiva da era da pirataria na teledramaturgia. Uma obra prima.

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