Crítica | Reza a Lenda

Os filmes brasileiros que conseguem chegar ao grande público geralmente são produções da Globo Filmes e o gênero é na maioria das vezes comédia “popularesca”. Então é bom ver a produtora se arriscar em outros gêneros, como o caso de “Reza a Lenda” dirigido pelo estreante Homero Olivetto.

Na história temos Ara (Cauã Reymond) como o líder de um grupo religioso de cangaceiros motociclistas, que ainda conta com outros elementos como Severina (Sophie Charlotte) que está em busca da concretização de uma lenda que faça chover no meio da caatinga devastada pela seca. Eles são jovens que perderam os pais quando crianças e foram recrutados por Pai Nosso (Nanego Lira) para se juntar à causa. A solução envolve a imagem de uma santa e mais uma “prenda” para que a lenda se realize. Então a busca começa pela disputa pela santa onde a jovem Laura (Luisa Arraes) se envolve por acaso após um acidente na estrada e acaba virando candidata a “prenda”. Ainda temos Tenório (Humberto Martins) dono da imagem da santa que não vai poupar esforços em reavê-la e Galego Lorde (Júlio Andrade), uma espécie de guru que tem as informações sobre o que fazer com a santa para que a lenda se realize.

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A trama parece simples, mas a forma como o roteiro de Homero Olivetto, Patrícia Andrade e Newton Cannito a apresenta e a desenvolve é cheia de problemas. O filme começa com o acidente de carro onde Laura e uma amiga acabam dando de cara com uma perseguição policial atrás de Ara. Aí corte para outro momento envolvendo a disputa pela santa, então voltamos novamente para esse acidente. E isso acontece mais de uma vez, só no primeiro terço do filme.

A montagem de Manga Campion e Marcio Canella tenta fazer algo não linear para tentar dar um impacto maior a história, só que isso acaba não funcionando por ficar alternando com flashbacks mostrando Pai Nosso recrutando as crianças e dessa forma acaba prejudicando o ritmo e o desenvolvimento da história. Isso sem falar das cenas de ação e tiroteios que são cheias de cortes e fica difícil entender o que está acontecendo na tela. De repente algum personagem levou um tiro e você não sabe exatamente quem atirou nele.

Além disso, o filme sofre um pouco com uma crise de identidade. Ele tenta usar elementos de faroeste misturados com algo mais urbano e meio pós-apocalíptico tipo Mad Max só que situado no nordeste onde, no lugar do cowboy, temos um cangaceiro sobre rodas. Analisando bem até que essa mistura poderia ter funcionado se tivesse sido desenvolvida melhor. Do jeito que ficou na tela realmente soa como algo meio perdido e sem identidade, ou seja, o conceito não funciona.

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Voltando à parte técnica, a fotografia de Marcelo Corpanni é razoável e na maior parte do tempo consegue captar bem a beleza da caatinga com belos cenários naturais, mas acaba sendo prejudicada pelos efeitos visuais e muitas vezes acabam soando bastante artificial. As cenas de perseguição de carros e motos acaba sofrendo com um CGI bem irregular que soa desnecessário e torna algumas cenas artificiais quando elas poderiam ter sido feitas de verdade. Para fechar a trilha sonora  de Rica Amabis e Tejo Damasceno (que assinam como Instituto) mistura vários gêneros musicais passando de new age a rock pesado com alguns elementos de música regional e ajudam a atrapalhar a falta de identidade do filme.

Para completar os personagens são bem sem graça e sem carisma por não terem um desenvolvimento satisfatório para que o público se envolva com eles. Além disso, falta química entre os atores, principalmente dos protagonistas Reymond, Charlotte e Arraes. Deveria haver também um clima de sensualidade já que eles formam uma espécie de triângulo amoroso, mas acaba rolando uma sexualidade forçada com nudez gratuita que não ajuda a criar um clima “quente” entre os personagens. Ou alguns fora de contexto apenas para explorar a beleza da atriz Luisa Arraes quando o personagem de Reymond manda “comprar um banho” para ela e em seguida a vemos nua tomando o suposto banho.

Fora isso as atuações são bem irregulares e muitas vezes soam caricatas sem conseguir o impacto que deveriam ter. Nisso o principal destaque é o vilão de Humberto Martins que ao narrar uma determinada história consegue gerar mais risos constrangedores em quem está assistindo do que algum tipo de ameaça. Existem poucos diálogos em alguns momentos, talvez na tentativa de deixar principalmente o protagonista Ara como um personagem mais misterioso, mas isso acaba gerando um silêncio constrangedor na maior parte do tempo.

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O principal problema mesmo do filme é uma história ruim que no final das contas não faz muito sentido, além de desperdiçar o conflito religioso do pano de fundo da trama. Talvez esse problema pudesse ter sido amenizado se as cenas de ação fossem bem realizadas e os personagens fossem interessantes, mas a parte técnica acaba prejudicando bastante o resultado final. É bom ver o cinema mainstream brasileiro se arriscar em outros gêneros, mas aqui infelizmente o resultado é bem irregular.


Classificação:


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Título Original: Reza a Lenda (Brasil, 2016)
Com: Sophie Charlotte, Cauã Reymond, Humberto Martins, Silvia Buarque, Luisa Arraes, Jesuíta Barbosa, Júlio Andrade, Jonathan Azevedo, Herbert Vital, Aluan Smuk, Nanego Lira e Zezita Matos
Direção: Homero Olivetto
Roteiro: Homero Olivetto, Patrícia Andrade e Newton Cannito
Duração: 87 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

6 thoughts on “Crítica | Reza a Lenda

  1. Achei o trailer até interessante, mas fiquei desconfiada…hehehe.
    Pelo jeito foi uma boa ideia jogada fora. Torcer para o cinema nacional continuar tentando sair da caixa e acertar!

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