Crítica | No Coração do Mar


Ron Howard é engolido por Moby Dick, em seu novo filme.

Ron Howard talvez seja o melhor e mais bem sucedido de todos os diretores de Hollywood que são apenas competentes. Howard começou sua carreira como astro mirim e conseguiu fazer uma transição de sucesso para a cadeira de diretor. Produziu e dirigiu filmes muito bons e bem sucedidos. Mas sempre lhe faltou um pouco de talento. Aquilo que diferencia um diretor competente de um diretor talentoso capaz de produzir uma obra de arte.

Não que não haja obras de arte no currículo do diretor. Filmes como Uma Mente Brilhante, O Preço de Um Resgate, Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo, Backdraft – Cortina de Fogo e Willow – Na Terra da Magia estão entre as melhores obras que seus gêneros produziram. Ele também é um diretor premiado, quanto a isso não há dúvida. É tecnicamente excelente. Ainda assim, é inegável que suas obras, por mais que sejam peças de qualidade diferenciada da indústria do entretenimento, dificilmente seriam classificadas como obras de arte do cinema.

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Pretensão, por vezes, é uma característica que faz falta. Principalmente a um bom artista. Sem ser pretensioso um artista raramente ousa. O mais comum é que fracasse. Mas o artista que é pretensioso e competente, consegue eventualmente ter sucesso e produzir verdadeiras obras de arte. E um pouco de pretensão é justamente o que falta para que um filme como “No Coração do Mar”, possa se tornar uma obra de arte.

Uma história gigantesca, uma narrativa menor

O filme conta, enfim, a história real do navio baleeiro Essex que inspiraram o novelista Herman Mellville a trazer à luz aquela que é considerada uma das mais importantes obras de literatura da língua inglesa, a obra Moby Dick. O filme inclusive toma a história de Mellville (Ben Whishaw) como artifício narrativo, na medida que o coloca como um personagem na história que, ao buscar inspiração para seu livro, encontra o último sobrevivente da fantástica história do naufrágio do Essex, Thomas Nickerson (Brendan Gleeson), de quem ele consegue extrair não apenas um relato, mas uma verdadeira confissão. Uma confissão penosa e extremamente sofrida.

Não bastasse isso, trata-se de uma história que tem paralelos bastante relevantes no mundo atual. Nos séculos XVIII e XIX, enfim, antes de petróleo ser descoberto, era outro óleo que movia o mundo e gerava fortunas: o óleo de baleia. É imediata a relação que a história entabula de oposição entre o homem, motivado por fins mesquinhos e vis, a princípio, confrontando a força da natureza e encontrando miséria e um certo tipo de redenção e esclarecimento nesse arco.

Temos diante de nós, sem dúvida alguma, um rico material real que trata de um drama de proporções épicas, com relevante subtexto e contexto de caráter social e humano. Mais ainda. temos a força simbólica do oceano e do homem que intrepidamente se lança para desbravá-lo; que se arremessa para além dos mistérios e encara a fúria, mesmo perante a ameaça de monstros (reais e imaginários) que brotam das profundezas escuras que refletem o desconhecido de nosso inconsciente.

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E Howard parece perceber tudo isso, e busca posicionar sua câmera sempre de forma a lançar o espectador em meio às profundezas do mar sem fim, desde o primeiro take. Todavia, a película ainda assim, com tudo isso, não é capaz de alcançar o esplêndido resultado a que poderia chegar. No final das contas No Coração do Mar é um bom drama, com belas cenas, um ótimo trabalho de câmera e fotografia que sabe explorar bem a tecnologia digital e 3D, com bons efeitos visuais e uma narrativa bem compassada. Mas falta algo mais à fita.

Uma direção apenas competente, um elenco regular e uma trilha sonora maravilhosa

Talvez seja justamente esse estilo extremamente formal de Howard que tende a seguir o manual de roteiro, produção e direção de Hollywood, e que não ousa muito. Talvez seja a presença de atores também sem muito talento no núcleo principal que conduz a narrativa – já que as cenas entre Gleeson, Winshaw e Michelle Fairley são bem superiores em qualidade – acabe comprometendo a força que as diversas cenas de intenso drama do filme demandam.

Chris Hemsworth, que interpreta o protagonista Owen Chase, como sabemos segue sendo um ator mediano incapaz de conferir a seu personagem a carga dramática que é essencial para que a história tenha um salto de qualidade. E de seu elenco de apoio, apenas Cillian Murphy (como sempre bastante competente e versátil) se destaca.

Mas não é apenas um escalação de elenco medíocre que atrapalha o filme. A responsabilidade é mesmo do diretor. Howard sabe conduzir bem uma narrativa, como já disse, mas a história que ele tem em mãos é tão grande, que exige algo mais para ser contada na escala que ela exige.

Temos a impressão muitas vezes que ele se detém a simplesmente narrar os fatos, como que um documentarista supervalorizado e com um farto orçamento em mãos, do que em efetivamente produzir uma obra cinematográfica que represente com a envergadura necessária aquele épico real humano.

Apesar disso a maravilhosa trilha sonora do espanhol Roque Baños ainda assim consegue se destacar. Sozinho ela funciona como uma obra capaz de traduzir a imensa força que a história possui. Não fosse por ela talvez a película de Ron Howard fosse ainda mais prejudicada.

É impossível não traçar, enfim, um paralelo entre No Coração do Mar e Moby Dick. Justamente pelo fato de Moby Dick ser a obra de arte que é. Estar a sombra de uma obra de tamanhas proporções, e se propondo a contar a verdade por trás dela, é algo equivalente a estar diante de uma monstruosa cachalote do tamanho de um edifício de 10 andares, e ser capaz de não ser engolido por ela. E essa é uma tarefa das mais difíceis. Exige-se além de habilidade, muito talento e um grande dose de pretensiosidade.



Título Original: In the Heart of the Sea
Título Nacional: No Coração do Mar
Gênero: Biografia/Drama/História
Ano: 2015
Duração: 121 min
Diretor: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt, Rick Jaffa e Amanda Silver (roteiro); baseado no livro de Nathaniel Philbrick.
Elenco: Chris Hemsworth, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Cillian Murphy, Benjamin Walker, Tom Holland, Frank Dillane e Michelle Fairley.
Graus de KB: 2 – Chris Hemsworth atuou em Vingadores: Era de Ultron, onde também esteve Josh Brolin, que atuou em O Homem Sem Sombra (2000) com Kevin Bacon.



5 thoughts on “Crítica | No Coração do Mar”

    1. tb acho Rush o melhor dele. um que passou despercebido pela maioria e é acima da média é Luta Pela Esperança. não é nada original, mas é uma história muito bem contada.

  1. excelente texto. estou realmente ansioso pelo filme. infelizmente, já deu pra perceber que faltou algo para Ron Howard aqui. bela definição sobre o diretor. depois de assistir comentarei novamente.

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