Review | Homeland 5×07: Oriole


No sétimo episódio dessa temporada de Homeland, Allison continua sendo o centro das atenções, e Carrie consegue finalmente avançar na sua busca por respostas.

Inicialmente é preciso destacar que Homeland demonstrou sensibilidade ao abrir o episódio com uma nota de pesar pela tragédia do dia 13 de novembro de 2015 em Paris, tendo a delicadeza de alerta que o enredo da trama pode incomodar aqueles que estão mais diretamente relacionados à tragédia.

Isso também atesta a contemporaneidade dos temas tratados pela série, algo que, desde o princípio, me faz apostar nessa como possivelmente a mais promissora de todas as temporadas até então. Infelizmente esse episódio apresenta alguns problemas no desenvolvimento do roteiro que podem comprometer aquela expectativa promissora inicial.

Sem mais delongas, vamos a nossa análise, lembrando sempre que o comentário que segue possui alguns spoilers e especulações, que por isso mesmo, devem ser apreciados com moderação.

Tudo (ou quase tudo) sobre Allison

Apesar das grandes revelações acerca da personagem de Miranda Otto estarem prometidas apenas para o próximo episódio, não há dúvidas que o sétimo episódio da quinta temporada de Homeland tem em  Allison Carr sua personagem principal. A cada episódio somos apresentados a novas camadas da personagem de Miranda Otto que consegue apresentar uma performance à altura. Um verdadeiro desafio se considerarmos a personagem nebulosa em questão.

É difícil para a audiência média travar relações de identificação com personagens desse tipo sem recorrer ao dramalhão ou a clichês. Ainda assim Miranda Otto é capaz de mostrar seu talento imprimindo reações verossímeis e humanas a uma personagem que tinha tudo para ser um tanto quanto superficial.

A direção da sempre talentosa Lesli Linka Glatter é também um elemento fundamental para a performance  de Miranda Otto nesse episódio. Desde a abertura é evidente que todo o desenvolvimento da diretora, de cadência da história, enquadramento e movimento de câmera, será no sentido de explorar a personagem e a atriz, e partir dela, dar o tom de tensão que o episódio se dispõe a ter.

Homeland5x07---006Não é fácil ser má…

Viúva Negra realista

Duas cenas muito marcantes sintetizam bem o ânimo da personagem, que transborda pelo episódio inteiro: A subida vertiginosa da escada em espiral de Allison para encontrar Krupin  e o ataque de pânico da mesma no banheiro, após receber a confirmação de Saul de que Carrie de fato não está morta, como ela já suspeitava.

É inevitável, para mim, não imaginar Allison como uma Natasha Romanoff realista. Até o cabelo dela me evoca essa sensação. Desde o primeiro momento de que me dei conta de que ela era uma agente dupla, minha mente começou a traçar esse paralelo. Creio que deva ser intencional. Já não era sem tempo de se construir uma outra personagem feminina forte, astuta e deliciosamente manipuladora para servir de antagonista direta à Carrie Mathison. E é ótimo perceber que ela é humana, que teme por sua integridade e liberdade se vier a ser descoberta.

Mas apesar da excelente interpretação de Miranda Otto, e de fato de eu não achar inverossímil a forma como ela facilmente manipula Saul (Mandy Patinkin) e Dar Adal (F. Murray Abraham) – afinal, eles não têm muito motivo para suspeitar dela, é verdade -, há uma coisa que me incomoda no enredo até aqui, que espero que seja esclarecida mais adiante. Na verdade duas coisas. Ambas relacionadas à Carrie, Allison e à trama principal dos dados vazados. Mais sobre isso, a seguir.

Homeland5x07---009Trabalho em equipe.

Lâmina de Occam

Nesse episódio, apesar de sua arqui-inimiga – que ela sequer se dá conta que exista – ter mais exposição, Carrie também não deixa de avançar em suas investigações. Com os arquivos vazados finalmente em suas mãos, ela começa a analisá-los e logo algo lhe chama a atenção. A palavra Oriole, que é como um contato seu em Bagdá, anos antes, em sua época no Iraque, se referia a ela. Ao falar com o contato, além de amargamente se dar conta das consequências de ter se afastado daquela vida, Carrie descobre uma importante informação acerca de um operativo da CIA junto ao Ministério da Justiça do Iraque, que deveria estar morto, mas que na verdade estaria vivo.

A princípio essa informação não diz muita coisa de relevante à Carrie, e funciona mais como a ponta de um novelo emaranhado que ela precisará desenrolar. Através de Düring e Laura Sutton (Sarah Sokolovic) ela consegue arregimentar a ajuda de Numan (Atheer Adel) e juntos descobrem uma pista do paradeiro do operativo iraquiano dado como morto que acaba levando Carrie até Amsterdã. Uma vez lá ela aciona um outro operativo antigo seu, que trabalha como taxista, e que a ajuda a localizar o seu alvo, mas isso acaba a colocando na mira dos Russos enviados por Krupin para limpar o rastro deles e de Allison.

Homeland5x07---001Peruca preta: artefato de camuflagem +20!

E é justamente nesse ponto que o roteiro fica comprometido para mim. Homeland se diferencia de séries como 24hs justamente por sua verossimilhança. E uma das regras para manter a verossimilhança em um roteiro é seguir a boa e velha fórmula da lâmina de Occam, que afirma que a solução mais simples será sempre a mais provável.

O que leva os Russos até Amsterdã também é justamente a capacidade de manipulação de Allison que, enquanto Carrie age, consegue extrair de Saul a importante informação de que sua adversária de fato não morrera. Graças a isso ela e Krupin são obrigados a forçar sua mão e se livrar do operativo iraquiano que deveria estar morto. Essa manobra deixa bem claro que, aquilo que os Russos querem a todo custo evitar que Carrie descubra, está diretamente relacionado ao tal operativo.

Não é nada saudável ser um “asset” de Carrie Mathison…

E foi justamente para evitar essa descoberta que eles teriam tramado dar cabo a vida de Carrie, não uma, mas duas vezes. Ora, mas se a grande preocupação deles era evitar isso, porquê não simplesmente se livraram do informante de Carrie em Bagdá, aquele que a chamava de Oriole? Não seria bem mais fácil dar sumiço em um antigo informante no Iraque do que assumir um risco maior de tentar matar uma antiga analista da CIA? Para mim esse é o maior problema da trama até agora.

Espero sinceramente que outras revelações sejam feitas que justifiquem a opção pela tentativa de assassinato de Carrie – ainda que motivado por um mesquinho interesse pessoal de Allison, porquê não – pois se assim não for, toda a temporada, que teve um bom enredo até aqui, poderá ficar comprometida.

Sem destino, sem noção…

Mas enquanto o desenvolvimento da narrativa parece acertar nas personagens centrais do enredo, o mesmo não pode ser dito daqueles que acabam se tornando os coadjuvantes que acompanham a trama um tanto quanto ao largo a partir daqui. Uns mais ao largo do que outros, é bem verdade,  e sem qualquer explicação razoável para tanto.

Incomoda ver Saul completamente perdido em meio ao furacão de Allison e Carrie, principalmente após o excelente episódio centrado nele, na semana passada. Não que ele devesse desconfiar ou assumir uma atitude paranóica em relação à Allison. Como já afirmei acima, nem ele nem Dar Adal tem motivos para suspeitar de Allison, e manipulação e ofuscação parece estar entre suas habilidades principais. Se assim não fosse ela não seria a mais bem sucedida agente dupla da história da KGB e SVR, como Krupin sugeriu.

Homeland5x07---004Não contavam com a minha astúcia!

Enfim, fazer com que Saul e Dar Adal simplesmente passassem a desconfiar dela apenas porquê nós, a audiência, sabemos que ela é uma agente dupla, seria simplesmente ridículo. Todavia, quando se trata de agentes de tamanha experiência quanto os dois personagens ora mencionados esperava-se ao menos que tivessem um pouco mais de bom senso em suas escolhas. A não ser que, pelo menos no caso de Saul, ele tenha deliberadamente decidido fazer o que faz, por talvez já saber mais do que aparenta. Mas creio que nesse caso é muito mais uma expectativa do que uma possibilidade concreta de que certos elementos do enredo possam ser salvos por tramas mirabolantes que também desafiariam a lógica da lâmina de Occam.

Confesso também que outra coisa que começou a me incomodar a partir dessa segunda metade da temporada diz respeito às opções dos roteiristas ao desenvolver a trama de Peter Quinn. Ok, todo mundo sabe que Quinn é um homem obcecado pela guerra, único lugar onde se sente verdadeiramente confortável. Mas outro traço interessante do personagem é sua relação com Carrie. Traço inclusive que foi bastante explorado na primeira metade da temporada e de maneira bastante empolgante.

Homeland5x07---007Peter “Bauer” Quinn.

Ocorre que Quinn parece ter simplesmente esquecido que Carrie existe e que está metida em uma grande enrascada. Há dois episódios atrás Quinn estava disposto a tirar sua própria vida, sob o pretexto de preservar a de Carrie. Agora ele simplesmente desapegou-se dessa situação e já trama com Dar Adal para se envolver em uma nova missão na qual ele, na prática, praticamente embarcou por acidente.

O embarque por acidente eu até posso aceitar. Nem tudo surge de uma trama elaborada, é verdade. Mas o fato de Carrie ser simplesmente esquecida por ele associada à nítida impressão de que a narrativa de Quinn está mais para uma série derivada dentro da série principal do que um enredo paralelo a mim me parece ser algo que em muito prejudica a estrutura narrativa e o enredo geral da temporada.

What’s the deal about Otto?

Isso na verdade vale para a maioria dos coadjuvantes. Jonas (Alexander Fehling), por exemplo, serve apenas para desperdiçar tempo de tela. Um personagem que a princípio servia a um certo propósito, agora se tornou absolutamente insosso, é muito difícil crer, mesmo com toda  a loucura de Carrie, que ela possa mesmo querer passar o resto de sua vida em uma cabana à beira do lago ao lado dele.

Para ser justo, quero crer que Jonas serve para ao menos uma coisa nesse episódio. Seu diálogo com o chefe parece revelar que Otto Düring (Sebastian Koch) talvez não seja assim tão solícito e afável quanto aparenta ser. ou pelo menos é isso que eu espero que se revele. Sim, pois desde o primeiro o personagem pareceu esconder algo e ter uma agenda própria que ele mantinha propositalmente escondida.

Homeland5x07---003Não… não é só porquê ele tem toda a pinta de oficial nazista…

Talvez por trás de eventuais razões secretas e manipulações do personagem de Sebastian Koch se esconda as lacunas que o enredo parece querer incomodamente apresentar nessa segunda metade da temporada. Se uma eventual conexão entre Düring e os russos, ainda que indireta, se revelar, isso pode ajudar a explicar melhor a trama de assassinato de Carrie e todo o rumo dessa temporada.

Se a resposta estiver nesse sentido, e se os roteiristas conseguirem desenvolverem isso de forma satisfatória, todas as críticas feitas a eventuais problemas de roteiro se mostrarão exageradas e a quinta temporada de Homeland, que a princípio se mostrava bastante promissora, pode enfim conseguir chegar ao seu fim atendendo a todas as expectativas.



hOMELANDPostersSérie: Homeland
Temporada:
Episódio: 07
Título: Oriole
Roteiro: Alex Gansa e Patrick Harbinson
Direção: Lesli Linka Glatter
Elenco: Claire Danes, Rupert Friend, Mandy Patinkin, Miranda Otto, Sebastian Koch, Mark Ivanir, Sarah Sokolovic, Atheer Adel e F. Murray Abraham.
Exibição original: 15 de Novembro de 2015 – Showtime
Graus de KB:2 – Miranda Otto esteve em Além da Linha Vermelha (1998)  com Elias Koteas que atuou em Droga da Sedução (2001) com Kevin Bacon.


4 thoughts on “Review | Homeland 5×07: Oriole”

  1. Essa parte de Quinn tb me incomodou muito. Como assim, um cara disposto a morrer por Carrie nem ao menos a procura para saber se tá viva?!
    Se ele a buscasse e por algum motivo achasse que ela fugiu e depois começasse a se envolver em outro caso, até entenderia, mas ele não buscou nada com Dar, não tentou falar com Saul, simplesmente esqueceu e partiu para próxima. Sem noção demais!!!
    O resto estava bom, tb não confio em During, só não entendi ainda qual é a dele, se ele vai só usar a Carrie para expor a CIA ou se tá mais envolvido nessa história.

    1. Pois é Ily. Ou estamos diante de um grande problema de roteiro ou de uma trama que ainda tem muito a revelar. Infelizmente aposto mais no primeiro.

  2. Se o cara que a chamava de Oriole já tinha passado a informação pra Carrie, não adiantaria de nada os russos o matarem.
    Concordo com a parte de Quinn

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