Crítica | A Visita (The Visit, 2015)

Nos últimos anos eu venho me perguntado o que aconteceu com M. Night Shyamalan. Já formulei inúmeras teorias a respeito do declínio na carreira de alguém que foi capaz de produzir um  irretocável O Sexto Sentido e também outros filmes subestimados como a exemplo de Corpo Fechado. Como esse mesmo diretor/ roteirista é capaz de produzir uma das maiores vergonhas alheias do cinema como foi o caso de Fim dos Tempos? Será mesmo que a indústria corrompe o talento ou será que por fazer um primeiro filme de sucesso monstruoso ele acreditou que poderia fazer qualquer coisa? Mas o que importa mesmo é que agora ele lançou seu filme A Visita com um orçamento de R$ 5 milhões e pela expectativa em torno do filme deve render mais de 10 milhões em bilheteria.

Em A Visita, M. Night Shyamalan desenha uma atmosfera de suspense contando a história de dois irmãos que vão passar uma  semana na casa dos avós maternos  com o intuito de conhecê-los e também tentar uma reconciliação entre eles e sua mãe pois não se falam desde que ela saiu de casa com 19 anos. Pelo fato de não terem um contato prévio com os idosos, as crianças começam a perceber que algo muito errado acontece naquela casa, principalmente depois do aviso contundente de que não devem sair do quarto após as 21:30.

Um dos pontos fortes do filme é exatamente algo que pelo trailer eu julgaria ser um problemão: Ele é todo filmado no estilo mockumentary [i] e por ser um estilo já saturado e ineficaz na maioria das vezes, desestimula de imediato quem se interessa pelo filme. No caso de A Visita,  o mockumentary funciona organicamente e não soa falso e desnecessário. As sequências são interessantes, seguindo a linha de entrevistas ou com um narrador oculto que normalmente é Becca.

A Visita

Os personagens também são um destaque pois, na minha concepção, trabalhar a identidade de crianças em filmes de terror não é uma tarefa fácil; eles caem facilmente no esteriótipo de prodígios ou reclusas. Em A Visita, temos Becca com 15 anos que tem um conhecimento acima da média a respeito de filmagens/produção/edição pois quer trabalhar com isso. Apesar disso não parece chata ou se considera mais inteligente que a média e muito menos tem preguiça na infantilidade – natural – do irmão mais novo. Vejo Becca como alguém que viu o sofrimento da mãe, se inspira e quer ser uma mulher independente e correr atrás daquilo que deseja. Em contraponto temos o Tyler, um aprendiz de rapper que volta e meia traz a irmã para um mundo mais leve, lembra a ela que podem se divertir, sorrir e relaxar. Tyler é o alívio cômico do filme e funciona também como um exemplo de mudanças interessantes na personalidade e compreensão, na sua visão infantil, das coisas: ele cria letras misóginas e usa palavrão mas tenta mudar o teor do rap colocando-se como centro e não as mulheres e também trocando os xingamentos por nomes de artistas da música pop. Isso funciona muito bem para aliviar a tensão.

Ter personagens interessantes é um desafio nos filmes de terror atualmente. Se preocupar com o destino deles é importante e mesmo seguindo a lógica de Hollywood onde animais e crianças não deveriam morrer, você quer que aquelas crianças se safem de um destino cruel determinado pelos avós. E o casal de idosos são aterrorizantes! Apesar de serem os responsáveis pelos momentos de tensão do filme, ainda sim são secundários devido ao papel das crianças. Uma das cenas envolvendo um forno é de um suspense digno de M. Night Shyamalan.

Apesar de muitos pontos positivos achei que o final não converge com o que o filme apresenta. Nesse momento o  mockumentary não funciona mais e a cena de suspense entre Becca e a avó não é interessante onde ela simplesmente continua filmando mesmo enquanto é atacada. Em compensação, a cena final de Tyler é muito boa e nem precisava de um background a respeito de um jogo de futebol americano para justificar tal comportamento. Ele é uma criança e se é normal para um adulto ter atitudes como aquela, por que seria diferente de uma criança? Ter medo é natural. Se a ideia de M. Night Shyamalan era ter uma reviravolta para o último ato, acredito que não funcionou pois os fãs mais atentos já tinham descoberto o que acontecia naquela residência! Mas dessa história toda o que fica é a felicidade de ver alguém tão talentoso reencontrando seu caminho. A Visita não é um dos seus melhores filmes mas nem de longe chega perto do fiasco que foi o O Ultimo Mestre do Ar! É preciso entender que nem todo filme de terror será um clássico, reinventará o gênero e será inesquecivel; mas nem por isso deixará de ser bom! Por isso mesmo, só posso dizer: – Bem vindo de volta M. Night Shyamalan!

 

[i] é o gênero onde é filmado normalmente em primeira pessoa no estilo documentário.


 

Titulo Original: The Visitposter A Visita

Titulo em Português: A Visita

Gênero: Terror / Suspense

Ano: 2015

Duração: 94 min

Diretor:  M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco:  Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn

 

 

Uma criatura meio doida que lembra a irmã do Ferris Bueller, finge que é nerd, adora filmes de terror mas tem medo de comédias românticas.

3 thoughts on “Crítica | A Visita (The Visit, 2015)

  1. A teoria mais válida é que graças ao próprio ego ele não ouve mais ninguém e faz o quer, aí com o tempo a coisa foi piorando até chegar no pior nível. Por esse filme parece que pelo menos ele está um pouco mais “humilde”. Depois de assistir comento melhor.

  2. É com muita alegria que leio sua crítica e observo uma quantidade considerável de elogios em outros sites. Eu tenho receio do filme pela draga que está a carreira do Shyamalen e pelo uso do mocukmentary, mas parece que não preciso me preocupar tanto!

    Quanto a O Fim dos Tempos, sabe que não acho tão ruim? Apesar do vilão bizarro que ninguém vê, há algo nele que me entretém! Ao contrario de A Dama na Água, que acho uma total perda de tempo.

  3. Não assisti ainda a este filme, mas sempre torci pela recuperação de M. Night Shyamalan! Bom ver que “A Visita” tem sido bem recebido. Vamos torcer para que Shyamalan não deixe, mais uma vez, o sucesso subir à cabeça! Humildade é sempre a chave!

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