Crítica | 007 Contra Spectre (Spectre, 2015)


A essência de James Bond está de volta em sua aventura definitiva da era Daniel Craig, juntamente com o maior adversário do agente 007 no cinema.

A nostalgia é sempre melhor antigamente

Lembro-me que quando criança eu costumava acordar de madrugada para assistir filmes na TV. Era particularmente fã da sessão Corujão da Rede Globo, que costumava exibir filmes que a faixa etária da sessão da tarde não permitia. Foi em uma dessas madrugadas que conheci e imediatamente me fascinei pelo mais audacioso de todos os homens da Rainha: James Bond, o 007. O filme era “Com 007 só se vive duas vezes” (You Only Live Twice, 1967) onde, curiosamente, Bond enfrenta a SPECTRE, uma organização criminosa internacional com planos nefastos em escala global.

É fácil entender como uma criança pode se fascinar por aquele universo apresentado no filme de 1967 dirigido por Lewis Gilbert e escrito, a partir de uma história original de Ian Fleming, por Harold Jack Bloom e ninguém menos do que Roald Dahl – sim, o próprio Roald Dahl que encheu a imaginação de milhões de crianças com histórias fantásticas como A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda e os Gremlins, todos adaptados para o cinema. O que fascina uma criança em James Bond é justamente o apelo verossímil ao fantástico e ao absurdo. Engenhosas geringonças mais eficientes que qualquer cinto de utilidades; organizações megalomaníacas controladas por gênios do crime ainda megalomaníacas e com elaborados planos de dominação global; e um agente imbatível e irrefreável que nem mesmo a morte parar, e que salva o dia e ainda fica com a garota. Bem, com diversas garotas.

Enfim, tudo em 007 era atraente e espetacular, e nada parecia absurdo, pois o clima da Guerra Fria no qual o mundo estava imerso transformar mesmo os espiões nos grandes heróis da humanidade e a corrida armamentista parecia não colocar muito distante qualquer um dos extraordinárias e praticamente improváveis avanços tecnológicos ao alcance de vilões e mocinhos. E, em suma, era essa fórmula de geringonças, vilões megalomaníacos com planos mais megalomaníacos ainda, beldades irresistíveis e um homem capaz de vencer qualquer desafio com charme e audácia que definia 007, sendo também seu principal apelo.

Durante muito tempo essa fórmula fez sucesso no cinema. Mas, como nada dura para sempre, em determinado ela começou a se desgastar. O mundo, afinal, mudara, e não era mais possível após a Guerra Fria terminar, manter o mesmo tipo de espião que conquistara o mundo de então conquistando mundo de hoje em dia. Para 007 não sucumbir, era preciso que ele se reinventasse. Era preciso que seu precioso universo fosse traduzido para o século XXI para que não perdesse sua irresistibilidade.

De 007 a James Bond

Quando Daniel Craig estreou como o mais famoso espião do cinema muitos o classificaram de um tipo truculento o que apontava para uma opção de caracterização quase que diametralmente oposta do típico charme de 007 marcado nas telas por Sean Connery, Pierce Brosnan e Roger Moore. Houve quem temesse, inclusive, que fosse mais uma malfadada tentativa de “atualização” do famoso personagem de Ian Fleming aos novos tempos, similar ao que se deu com Timothy Dalton na década de 80.

Felizmente todos os temores foram afastados, e ficou claro que os produtores queriam mostrar um amadurecimento do personagem ao longo dos longas-metragens que se seguiriam. Em Casino Royale de 2006 Bond é ainda um ex-militar recentemente recrutado pelo MI6 no programa 00. Naquele momento ele carece de fato de experiência, e resolve as coisas mais na marra do que na habilidade.

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Com o tempo, nos longas que se seguiram (Quantum of Solace de 2008 e Skyfall de 2012), vimos James Bond amadurecer como agente, ou melhor, ser devidamente transformado pela M de Judi Dench de um cão raivoso em uma eficiente máquina da matar implacável e irrefreável. Quando Sam Mendes assumiu as rédeas da direção da série em Skyfall o seu estilo próprio como diretor trouxe de volta o estilo típico de James Bond que parte dos fãs mais nostálgicos exigiam de volta. A truculência foi transformada em virilidade, e o resultado agradou bastante tanto os fãs antigos quanto os mais novos. Principalmente as mulheres. Afinal, o charme rude e petulante de Daniel Craig parecia estar mais adequado à figura de um assassino treinado para matar sem clemência do que o estilo um tanto quanto flamboyant de seus predecessores.

Enfim, ao que tudo indica, o elemento do homem duro e implacável treinado para matar, o assassino profissional que age sob a égide da legalidade estatal, mas que nem por isso é muito diferente de outros assassinos, parecia ser aquilo que os produtores queriam ressaltar para com isso conferir um pouco mais de drama e realismo à mais longeva cine-série da história do cinema. Era preciso, afinal, todos os demais filmes do gênero haviam aprendido a imitar James Bond ao longo dos anos; e numa época onde Jason Bourne arrecadava milhões em bilheteria, era claro que o caminho de sobrevida de James Bond era mesmo se reinventar, indo no caminho oposto, e mais no sentido de seu colega estadunidense de iniciais.

Assim, desde o primeiro momento fica bem clara uma coisa que em outros filmes da série sempre fora um tanto quanto suavizada: James Bond é um assassino. Um assassino treinado e altamente eficiente a serviço da Coroa Britânica, convocado para fazer o serviço sujo que ninguém mais seria capaz de fazer, que não um agente 00.

Os produtores também fizeram questão de, desde o primeiro filme, deixar claro que dessa vez havia uma grande trama se desenrolando, que se revelaria progressivamente ao longo dos filmes subsequentes. Os filmes seriam independentes, como sempre, mas houve a promessa de que tudo fazia parte do um plano maior. E se nos primeiros três filmes essas peças do plano maior eram apresentadas com sutileza, em Spectre – o filme que fecha o arco de histórias de apresentação e afirmação do James Bond definitivo do século XXI – o eixo narrativo da trama é justamente esse plano. E apesar de não ter a mesma densidade dramática que Skyfall (sem dúvida alguma ainda o melhor dos quatro filmes com Daniel Craig), Spectre é ainda um verdadeiro deleite para os fãs de longa data de James Bond.

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Meu nome é Mendes. Sam Mendes.

Se há uma coisa que se pode afirmar sobre Sam Mendes é: “Diabos, esse cara sabe dirigir!”. Já na longa cena de abertura no México, na festa do Dia dos Mortos, Mendes esfrega na cara da audiência a sua habilidade com um fantástico plano-sequência. A partir daí somos brindados com enquadramentos e fotografias sempre deslumbrantes. Mendes mostra que conhece seu ofício como poucos. Sua lente consegue captar a beleza e dar vida a ela numa tela de cinema em cada instante. Cada frame de Spectre, com seus diversos cenários, planos, panorâmicas, montagens, efeitos é um exercício do que há de melhor no cinema.

E é graças a essa espantosa habilidade que Sam Mendes consegue traduzir tudo havia de melhor nos filmes clássicos de 007 para uma linguagem contemporânea. Após quatro filmes parece que o plano traçado desde o início em Casino Royale finalmente revela seus verdadeiros propósitos e com muito sucesso: revitalizar o James Bond clássico da era Connery; principalmente, com todas as suas engenhosas geringonças, suas donzelas em perigo, seu charme irresistível, sua inabalável confiança e, o melhor de tudo, seus mais fantásticos e estereotipados oponentes – organizações criminosas dispostas a dominar o mundo, com capangas do tamanho de uma árvore, olhar assassino, e que não pronunciam uma palavra sequer, liderados por gênios do crime cartunescos que deliciosamente explicam os detalhes de seus planos enquanto torturam o herói.

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007 contra Spectre tem tudo aquilo que nos encantava quando assistíamos ao 007 da Guerra Fria, encarnado por Connery e Moore. E esse é o grande mérito do filme. Conseguir com bastante sucesso, após um longo percurso e preparação da audiência – através da utilização de uma jornada de amadurecimento do personagem que expôs a intimidade de James Bond como nunca antes – traduzir para a contemporaneidade todos aqueles elementos que se tornaram a essência de 007 desde a estreia do personagem no cinema.

Destaque também, nesse sentido, ao extenso, porém sutil, trabalho de referências aos personagens e filmes prévios, que ajudam a condensar a sensação de integridade que o quarto filme da série almeja. Apesar de se tratarem de quatro filmes distintos, fica bem demarcado ao espectador que toda a fase de Daniel Craig como James Bon se trata de uma longa e bem preparada única história.

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O roteiro de John Logan é um tanto quanto apressado, recorre a artifícios desnecessários e a alguns clichés que poderiam ser descartados. Ensaia se apoiar um pouco mais nos coadjuvantes do que de costume, mas também não logra muito êxito nisso. Q (Ben Whishaw), Moneypenny (Naomie Harris) e M (Ralph Fiennes) mereciam mesmo ter uma participação de maior destaque nesse longa, e os roteiristas aparentemente chegaram a tentar isso, mas no fim essa tentativa não prospera muito reduzindo suas participações mesmo ao suporte básico. Na mesma medida ficamos esperando uma melhor aproveitamento de tela para Andrew Scott, o Moriarty do Sherlock de Benedict Cumberbatch, que com certeza foi estrategicamente colocado no papel de C por esse motivo.

Mas nada disso importa muito. Afinal, Spectre é fundamentalmente uma enorme homenagem de Sam Mendes aos fãs e principalmente a um dos mais icônicos personagens da história do cinema.

Assim Sam Mendes e Daniel Craig nos proporcionam (o que pode ser) uma despedida a altura de 007. Finalmente testemunhamos perante nossos olhos caminhar mais uma vez o mesmo James Bond que há mais de 50 anos aparecera em uma tela de cinema salvando o mundo e tomando para sempre seu lugar em nossos corações e mentes.



Título Original: Spectre
Título Nacional: 007 Contra Spectre
Gênero: Ação/Aventura/Thriller
Ano: 2015
Duração: 148 min
Diretor: Sam Mendes
Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth.
Elenco: Daniel Craig, Naomie Harris, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Dave Bautista, Rory Kinnear, Andrew Scott, Monica Bellucci e Christoph Waltz.
Graus de Kevin Bacon: 2 (Daniel Craig esteve em Estrada Para Perdição (2002), de Sam Mendes, juntamente com Jennifer Jason Leigh  que atuou em Em Carne Viva (2003) com Kevin Bacon)



5 thoughts on “Crítica | 007 Contra Spectre (Spectre, 2015)”

  1. Vou assistir amanhã quando estrear. Sou fã da franquia e talvez a versão de Daniel Craig seja a melhor por ser mais “séria” sem deixar de ser divertido. Agora acho que faltou você comentar sobre as mulheres do filme, principalmente a presença de Monica Bellucci que é a bond girl mais “velha” da franquia e que é mais velha que o protagonista. Mas gostei que você não soltou SPOILERS.

    1. Pois é. Monica Bellucci é sempre Monica Bellucci e o legal é que ela não esconde a idade no filme. Tem as rugas e o corpo de uma mulher da idade dela, mas uma beleza maravilhosa. Chamar ela de Bond Girl é “diminui-la” um pouco. Sua participação é curta, mas importante. Léa Seydoux cumpre um papel similar ao de Vesper Lynd em Casino Royale. Há um elo afetivo genuíno entre ela e Bond que é importante para amarrar o arco final do personagem. Mas sem SPOILER. Me esforcei. Valeu.

  2. A essência está de volta essa ideia de remeter aos clássicos filmes do agente é muito boa mesmo, só que achei o filme um tanto quanto arrastado, cheguei até a dar uma leve cochilada numa parte e faltou química no casal, faltou histórias mais interessantes para compor a história principal e, não sei. achei apenas bom.

    Daria 3 Kevin Bacons. Mas esse sou eu idoso e chato.

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