Review | Doctor Who 9×06: The Woman Who Lived


Maisie Williams não é mais a garota que morreu, mas uma mulher que viveu. Uma mulher que resistiu ao tempo e foi duramente marcada por ele. E que busca desesperadamente por uma saída. Pois, quem quer viver para sempre, afinal?

Como já falamos aqui diversas vezes, a morte é uma presença constante nessa nona temporada de Doctor Who. Como poucas vezes Steven Moffat parece determinado a fazer o Doutor encarar esse tema de frente, e debater a sua relação com o mesmo. Esse episódio talvez seja um daqueles que traga as mais interessantes ponderações e desenvolvimentos até aqui, em torno do tema abordado.

É difícil afirmar que se trate da conclusão do episódio da semana anterior. Não se trata de um episódio em duas partes. Ainda assim é uma continuação direta do mesmo. Mas a continuação direta se dá apenas na medida em que observamos o segundo encontro entre o Doutor e a imortal que ele criou, Ashildr, e explora os meandros da relação entre ambos. Também é um episódio atípico pelo fato de mostrar o Doutor sem sua típica companheira, o que se mostra uma decisão acertada, dando mais tempo para Capaldi e Williams contracenarem e desenvolverem a relação entre suas personagens, sem qualquer ruído indesejável (sim… eu não suporto mais Clara Oswald.)

Quem quer viver para sempre?

Cerca de 800 anos se passaram e Ashildr não é a mais a garotinha corajosa que morreu bravamente em uma aldeia viking. Ela agora se autodenomina apenas Lady “Me” e abandonou seu nome original; o tempo e suas agruras cobraram um alto preço de Ashildr: sua capacidade de se relacionar com o resto da humanidade, e com isso, sua própria identidade. E para compensar a realidade enfadonha na qual se vê aprisionada desde que o Doutor lhe retirou o dom da mortalidade ela age como uma salteadora de estradas, sob a alcunha da Knightmare. Mas tudo pelo que ela mais anseia é uma fuga. E é a busca por essa fuga que faz com que seu caminho se cruze com o Doutor mais uma vez.

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O Doutor e Knightmare ambos estão em busca do sugestivo “Amuleto de Hades”, um artefato alienígena com propriedades bastante especiais relacionadas, claro, à energia vital dos mortais. Para Lady Me, trata-se de sua rota de fuga, na medida em que o Doutor – assim ela entende – a abandonou naquele mundo tedioso, sem jamais convidá-la para viver aventuras juntamente com ele. Logo ela que, como ele, é imortal, e por isso ele deveria entender melhor do que ninguém seu dilema. E o Doutor entende.

O episódio consegue ainda um bom equilíbrio da mistura de ficção e fantasia que é tão característica de Doctor Who. O roteiro não traz grandes surpresas ou reviravoltas, mas o objetivo deste é mais aprofundar a relação entre o Doutor e Ashildr, e isso ele o faz com extrema competência. O desenvolvimento das situações é muito divertido, e é bom ver mais uma vez o papel psíquico em ação. A direção do episódio é também muito bem conduzida, tanto nos enquadramentos, na narrativa bem desenvolvida e no bom uso de recursos de câmera para valorizar os ótimos efeitos especiais tornando-os ainda mais interessantes. A maquiagem do episódio também é muito boa, pelo menos no que diz respeito ao aliado misterioso de Ashildr.

Amigos imortais, e outros percalços

Logo fica claro o motivo pelo qual jamais poderemos esperar em ter Maisie Williams como a próxima companheira do Doutor. Para o Doutor isso é bem claro, mas essa é uma lição que Knightmare precisa aprender, mas para isso é preciso resgatar a jovem Ashildr dentro dela e mais uma vez se conectar com a humanidade. E o Doutor talvez saiba disso bem, não apenas pela sua longa experiência, mas por ter vivenciado algo semelhante em sua fuga de Gallifrey.

Isso fica bem evidente em mais um excelente diálogo da série, interpretado esplendidamente por Peter Capaldi. Maisie Williams está à altura do ator – de uma competência pouco vista na série ultimamente – e se mostra como um talento verdadeiramente promissor, nos fazendo desejar que os produtores de Game of Thrones deem mais espaço à Arya Stark nas próximas temporadas, e não apenas por conta de sua excelente personagem. Na cena em questão eles debatem sobre a efemeridade da vida humana, que para Ashildr é fonte de extrema frustração e amargura. Mas o Doutor esclarece que é a condição efêmera da humanidade que os fazem valorizar tanto a vida, e que justamente por isso dois imortais não devem viajar juntos: eles necessitam dessa perspectiva sobre a vida que a apenas a efemeridade pode lhes conferir.

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Na mesma cena a relação entre Ashildr e o Doutor estabelece suas bases. Não inimigos, não. Como também ficou claro na relação com Missy, não são os inimigos o grande problema, mas os amigos. É deles que deve sempre se esperar o pior, e o Doutor também sabe disso. Ashildr avisa ao Doutor, assim, que sempre seguirá seu rastro, se ocupando de cuidar das consequências dos atos do Senhor do Tempo; juntando os pedaços de tudo que ele deixou para trás. Testemunhamos assim aquilo que pode ser mais um grande personagem da mitologia do Doutor, senão, na pior das hipóteses, alguém que com certeza será instrumental para a conclusão dessa nona temporada.

Sem dúvida alguma veremos Maisie Williams mais uma vez, de preferência para dar cabo de uma vez por todas a Clara Oswald.



Posters-TheMagicianApprenticeSérie: Doctor Who
Temporada:
Episódio: 06
Título: The Woman Who Lived
Roteiro: Catherine Tregenna
Direção: Ed Bazalgette
Elenco: Peter Capaldi, Jenna Coleman, Rufus Hound, Ariyon Bakare e Maisie Williams.
Exibição original: 24 de Outubro de 2015 – BBC One
Graus de Kevin Bacon: 2×3 (Peter Capaldi atuou em O Quinto Poder (2013) com John Moraitis que atuou em Verdade Nua (2005) com Kevin Bacon e Maisie Williams atuou em Gold (2014) com Steven Mackintosh que esteve em London Kills Me (1991) com Brad Dourif que atuou em Assassinato em Primeiro Grau (1995) com Kevin Bacon).


3 thoughts on “Review | Doctor Who 9×06: The Woman Who Lived”

  1. Quando vejo passar o final dos episódios antes do Jornal da Cultura sempre fico com uma péssima impressão. Notar que você acompanha tão de perto Mário me deixa até surpreendido. 🙂

    1. A princípio a série causa um estranhamento sim. O jeito de fazer sci-fi britânico é bem diferente do estadunidense. Mas eles focam mais em roteiro e personagens e interpretação. E isso funciona. Ganha peso. Relevância. Com o tempo os efeitos da série melhoraram muito. Vale a pena conferir.

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